Contrato bilionário e controvérsias em torno da Salt Tecnologia
O Governo do Paraná assinou um contrato no valor de R$ 112,1 milhões com a empresa Salt Tecnologia Ltda., reacendendo debates sobre a gestão do sistema de margem consignável dos servidores estaduais. Formalizado pela Secretaria de Estado da Administração e da Previdência (Seap), o acordo prevê a operação do sistema pelos próximos 60 meses e sucede um período marcado por disputas judiciais, questionamentos do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) e polêmicas relacionadas à origem da contratada.
O Extrato do Contrato nº 861/2026 GMS, publicado pela Seap, estabeleceu a contratação da Salt para fornecer um sistema informatizado integrado à folha de pagamento dos servidores públicos estaduais, abrangendo civis, militares, ativos, inativos e pensionistas. O contrato globaliza um valor de R$ 112.123.200,00 com vigência de cinco anos.
Histórico de disputas e suspeitas na contratação
A contratação da Salt acontece após uma longa disputa envolvendo o gerenciamento do sistema de consignados do Estado, que administra os descontos facultativos na folha de cerca de 240 mil servidores estaduais. O histórico da empresa no Paraná já recebeu atenção do TCE-PR, que em abril de 2025 determinou a suspensão de um contrato emergencial firmado entre a Salt e a Seap. Na ocasião, o conselheiro Fernando Guimarães apontou indícios de irregularidades, como possível “emergência fabricada”, falta de transparência e indícios de favorecimento à empresa.
O relator também destacou que a contratação emergencial ocorreu durante a vigência de outro contrato para a mesma finalidade, prestado pela Fundação Parque Tecnológico Itaipu (ParqueTec), sem comprovação suficiente de irregularidades que justificassem a interrupção do serviço. O documento do TCE levantou a hipótese de que a administração pública teria criado ou agravado uma situação emergencial para justificar a dispensa de licitação e facilitar a contratação da Salt.
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Conexão societária e declaração de inidoneidade em São Paulo
Outro ponto polêmico envolve a relação entre a Salt Tecnologia e a Zetrasoft, empresa que administrou o sistema de consignados do Paraná entre 2019 e 2024. Registros societários mostram que Delber Andrade Gribel Lage, diretor e sócio da Salt, também figurava entre os sócios da Zetrasoft Ltda. SCP 3, junto com Renato Cesar Vieira Araujo, que mantém sociedade com Delber em outra empresa.
A controvérsia ganhou força após a Prefeitura de São Paulo declarar, em setembro de 2025, tanto a Zetrasoft quanto a Salt Tecnologia inidôneas para licitar e contratar com o município. O motivo foi a constatação de uma suposta fraude societária, em que a Salt teria assumido o controle da Zetrasoft para driblar sanções já aplicadas.
O secretário do Governo Municipal Substituto, Fabio Augusto Martins Lepique, assinou o despacho que apontou abuso da personalidade jurídica e tentativa de burlar penalidades administrativas. Com base na Lei nº 8.666/1993, as duas empresas foram declaradas inidôneas para contratar com São Paulo enquanto persistissem os motivos da punição.
Decisões do Tribunal de Contas e continuidade do contrato
Apesar da suspensão inicial determinada pelo TCE-PR, em outubro de 2025, o Tribunal Pleno aprovou um voto divergente que flexibilizou a cautelar. A decisão permitiu a manutenção temporária do contrato com a Salt, mas determinou que o Estado realizasse uma nova contratação emergencial em até 30 dias e promovesse uma licitação definitiva em, no máximo, 180 dias.
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O voto vencedor ressaltou que a retomada dos serviços pela ParqueTec poderia colocar em risco a continuidade do sistema, já que a fundação manifestou interesse em rescindir o contrato e realocar seus recursos. Ainda assim, o Tribunal manteve alertas sobre falhas no processo de contratação da Salt, envolvendo transparência, competitividade e critérios de remuneração.
Contratação definitiva e questionamentos persistentes
Após o período emergencial, a Seap realizou o processo que resultou no atual contrato de cinco anos com a Salt Tecnologia, mantendo a empresa à frente da operação do sistema de consignados. Durante essa tramitação, houve decisão liminar que suspendeu temporariamente a contratação, com base nas declarações de inidoneidade da empresa pela Prefeitura de São Paulo. Contudo, essa medida foi revertida, autorizando a continuidade do acordo.
Com a assinatura do contrato, a Salt Tecnologia permanece responsável por um dos serviços mais sensíveis da administração pública estadual, gerenciando os descontos facultativos de aproximadamente 240 mil servidores ativos, inativos e pensionistas do Paraná.
