De rota náutica a projeto social
Quando o Governo do Paraná apresentou a proposta de reativação do Canal do Varadouro, o cenário escolhido para o anúncio foi um dos maiores eventos da indústria náutica da América Latina, o São Paulo Boat Show de 2024. Na ocasião, o governador Ratinho Junior lançou o projeto como uma nova “BR do Mar”, prometendo uma rota navegável entre Paranaguá (PR) e Cananeia (SP). A iniciativa visava fortalecer o Turismo náutico, integrar o litoral dos dois estados e potencializar a economia local por meio do crescimento da indústria de embarcações de lazer.
Nas apresentações institucionais, o governo destacava o aumento do número de embarcações e a perspectiva de criar um corredor turístico voltado à navegação. “O Paraná tem um potencial enorme para o turismo náutico”, afirmou Ratinho Junior, defendendo a recuperação do canal como um marco para o setor.
O significado por trás da “BR do Mar”
A expressão “BR do Mar”, usada pelo governador durante a apresentação, simbolizava a criação de uma nova rota navegável capaz de impulsionar o turismo náutico e integrar o litoral paranaense ao paulista. Com o avanço do projeto, o discurso oficial passou a valorizar também o turismo de base comunitária e os benefícios às populações tradicionais que vivem ao redor do canal.
Primeira abordagem: Potencial econômico e turismo náutico
Os materiais de divulgação do Estado inicialmente ressaltavam o impacto econômico esperado, destacando o fortalecimento do turismo náutico, o fomento à indústria relacionada, e o surgimento de oportunidades para marinas, estaleiros e operadores turísticos. A recuperação do Canal do Varadouro fazia parte de uma estratégia mais ampla para posicionar o Paraná como referência nacional no setor náutico, explorando uma extensa costa navegável ainda pouco aproveitada.
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Naquela fase, as comunidades tradicionais apareciam como beneficiárias indiretas, mas não eram o foco principal da narrativa institucional.
Mudança de foco com o avanço do licenciamento ambiental
Com o início do processo de licenciamento ambiental, o debate ganhou novos contornos. Pesquisadores, organizações ambientalistas, Ministério Público Federal, ICMBio e Ibama passaram a questionar os possíveis impactos da dragagem e a necessidade de estudos detalhados sobre a dinâmica do Lagamar, área de grande relevância ambiental.
Simultaneamente, a comunicação oficial mudou o tom e o enfoque. Em reuniões com moradores, entrevistas e notas oficiais, o argumento central deixou de ser o turismo náutico para realçar a melhoria da mobilidade das comunidades tradicionais, a integração entre vilas isoladas e o incentivo ao turismo comunitário.
Prioridade às comunidades tradicionais e ao desenvolvimento sustentável
Em vez de destacar marinas e embarcações de lazer, as mensagens passaram a valorizar pescadores, moradores ribeirinhos, transporte escolar e acesso a serviços públicos. A Secretaria de Estado do Planejamento descreve o projeto como voltado ao desenvolvimento sustentável e à valorização das populações locais, ressaltando a geração de renda para pequenos empreendedores da região.
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Dupla narrativa: desafios e perspectivas
Essas duas narrativas coexistem e não são necessariamente contraditórias. Melhorar a navegabilidade pode beneficiar tanto a população local quanto as atividades turísticas. No entanto, a diferença de ênfase entre as etapas do projeto chama atenção: enquanto o lançamento público focava no turismo náutico e no potencial econômico, o discurso atual prioriza os benefícios sociais e o turismo comunitário.
Para pesquisadores e entidades que acompanham o licenciamento, definir claramente o objetivo central do projeto é essencial para avaliar seus impactos ambientais e sociais, além de orientar os estudos necessários para garantir a sustentabilidade da intervenção.
Posicionamento do Governo do Paraná
O Governo do Paraná afirma que não houve alteração no objetivo do projeto. Segundo a administração estadual, a recuperação da navegabilidade sempre buscou equilibrar o desenvolvimento econômico, a melhoria da mobilidade regional e o fortalecimento do turismo sustentável.
Ainda em fase de elaboração, o projeto depende das condicionantes impostas pelo Ibama no processo de licenciamento ambiental. Enquanto os estudos ambientais não começam, a discussão sobre o Canal do Varadouro ultrapassa a engenharia da obra e questiona o modelo de desenvolvimento planejado para um dos ecossistemas mais importantes do litoral brasileiro.
