Resultados do Bonde Urbano Digital na Região Metropolitana de Curitiba
O Bonde Urbano Digital (BUD), veículo elétrico que opera sobre pneus e é guiado por trilhos virtuais, concluiu sua fase experimental entre Pinhais (PR) e Piraquara (PR) com uma aprovação de 93,1% dos usuários, segundo dados divulgados pelo Governo do Paraná em 27 de outubro de 2026. Ao longo de dez meses, o bonde realizou 633 viagens, transportando 10.879 passageiros e percorrendo 6.433 quilômetros, refletindo uma aceitação significativa na região metropolitana.
Comparação da tecnologia e decisões para o transporte metropolitano
Apesar do alto índice de aprovação, o fim dos testes não assegura a incorporação definitiva do BUD à rede metropolitana. A Agência de Assuntos Metropolitanos do Paraná (Amep) utilizará os dados coletados para comparar essa tecnologia com outras alternativas, como o BRT elétrico e o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) tradicional. Em São Paulo, a Prefeitura optou por substituir o VLT pelo sistema elétrico sobre pneus, semelhante ao BUD, no projeto Bonde São Paulo, uma mudança que levanta questões sobre a validade dos estudos ambientais originais para o VLT.
Detalhes da operação experimental e avaliação dos usuários
Os testes começaram em dezembro de 2025 com um trajeto parcial entre o Terminal São Roque, em Piraquara, e o Parque das Águas, em Pinhais. Em janeiro de 2026, o percurso foi estendido até o Terminal Metropolitano de Pinhais, totalizando aproximadamente dez quilômetros. A tarifa praticada foi de R$ 5,50, igual à do transporte convencional, e o serviço funcionou como complemento às linhas existentes.
Uma pesquisa da Amep atribuiu ao sistema uma nota média de 8,78 numa escala de zero a dez, confirmando a boa recepção dos passageiros. Contudo, a análise indica que essa aprovação não é suficiente para afirmar que o BUD é mais eficiente ou econômico que ônibus articulados, biarticulados elétricos ou VLTs. Será necessário avaliar aspectos como capacidade, frequência, custos, consumo energético e manutenção.
Capacidade e frequência: limitações observadas nos testes
Embora o veículo tenha capacidade para até 280 passageiros, a operação experimental ocorreu em horários restritos, sem substituir integralmente os ônibus convencionais. A média foi de cerca de 17 passageiros por viagem, com percurso médio de 10,16 quilômetros, próximo da distância entre Pinhais e Piraquara.
Esses números refletem a oferta limitada do serviço, que contou com aproximadamente quatro viagens diárias, enquanto as linhas convencionais realizam 141 viagens por dia útil. Dessa forma, o bonde digital não foi testado sob condições de alta demanda, o que impede conclusões definitivas sobre sua eficiência ou procura.
Contrato para desenvolvimento e testes do bonde digital
O projeto foi contratado pela Amep como uma encomenda tecnológica, modalidade prevista na legislação brasileira para pesquisas com risco tecnológico. O contrato, firmado com a fabricante chinesa CRRC Nanjing Puzhen Co. Ltd. e a Global Ace Participações e Investimentos Ltda., teve valor de R$ 6.071.600 e prazo de 15 meses.
Leia também: Bonde Urbano Digital Inicia Operação Completa em Curitiba: Descubra Como Funciona
Leia também: Bonde Urbano Digital Inicia Operação Completa entre Piraquara e Pinhais
Esse montante engloba pesquisa, desenvolvimento, inovação, disponibilização do veículo em comodato, materiais e mão de obra especializada, sem representar a compra definitiva do bonde. Essa estratégia permitiu ao Paraná testar o sistema antes de decidir sobre sua adoção permanente, que demandaria investimentos em infraestrutura, garagens, oficinas e sistemas operacionais.
Características da tecnologia e comparação com ônibus elétricos
O Bonde Urbano Digital reúne características de VLTs tradicionais e ônibus elétricos. Com cerca de 30 metros de comprimento e capacidade para 280 passageiros, o veículo conta com ar-condicionado e circulação nos dois sentidos. Ao contrário do VLT tradicional, não utiliza trilhos metálicos, mas circula sobre pneus guiados por sensores e marcadores magnéticos instalados no pavimento rodoviário.
A propulsão é elétrica, com armazenamento em supercapacitores que permitem recargas rápidas em pontos específicos. Uma recarga completa dura cerca de 12 minutos, garantindo autonomia para até 40 quilômetros, enquanto recargas rápidas de 30 segundos podem aumentar a autonomia conforme as condições operacionais.
O sistema dispensa a construção de trilhos, o que pode reduzir custos e facilitar intervenções urbanas. Ainda assim, requer infraestrutura adequada, incluindo pavimento, alimentação elétrica, manutenção especializada e espaços para embarque e desembarque. O impacto sobre o pavimento e a necessidade de manutenção também são fatores a serem considerados.
Mudança tecnológica no projeto Bonde São Paulo e desafios ambientais
Em 13 de abril de 2026, a Prefeitura de São Paulo anunciou a substituição do VLT tradicional pelo Veículo Leve Elétrico (VLE), sistema similar ao BUD, para o projeto Bonde São Paulo no centro da capital. A mudança foi justificada pela redução de custos e limitações geométricas do trajeto.
O projeto prevê duas linhas com cerca de 12 quilômetros, ligando áreas centrais como Bom Retiro e Brás, com integração a terminais de ônibus, metrô e trens metropolitanos. A expectativa é atender mais de 130 mil passageiros por dia e contribuir para a revitalização urbana da região.
Leia também: Ônibus Elétrico Brasileiro Passa por Testes no Rio de Janeiro: Um Marco Tecnológico
Fonte: belembelem.com.br
Leia também: Como o abandono da ferrovia travou a economia e mudou a dinâmica de Baturité
Fonte: soudejuazeiro.com.br
Apesar da redução estimada no investimento, o novo sistema precisa garantir prioridade na circulação para evitar congestionamentos, além de exigir análise detalhada dos custos de implantação, operação e manutenção em comparação ao VLT.
A Prefeitura enfrenta questionamentos ambientais, pois os estudos apresentados foram originalmente elaborados para o VLT tradicional. A atualização desses estudos está em avaliação, considerando as diferenças operacionais e urbanísticas entre as tecnologias.
Contexto nacional e próximos passos para o bonde digital
A Amep utilizará os dados do teste para comparar o BUD com outros sistemas e avaliar sua adoção em corredores metropolitanos. O estudo está alinhado ao Estudo Nacional de mobilidade urbana (ENMU), desenvolvido pelo Ministério das Cidades em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que identifica oportunidades para expansão dos sistemas de média e alta capacidade.
Para a Região Metropolitana de Curitiba, o ENMU indica potencial para 206 quilômetros de expansão e investimentos entre R$ 11,73 bilhões e R$ 22,74 bilhões, com capacidade para atender cerca de 915 mil passageiros por dia. A Amep também participa de projetos de BRT e VLT na região, avaliando diferentes tecnologias para mobilidade urbana.
A experiência no Paraná, embora positiva, não substitui a necessidade de estudos específicos para São Paulo, que enfrenta desafios próprios em relação à demanda, infraestrutura e integração com outros sistemas. A decisão sobre a implantação do bonde digital dependerá da análise de custos, capacidade e benefícios concretos para a população.
O foco principal está em entender o custo por passageiro, a capacidade nos horários de pico e os ganhos efetivos frente às alternativas já existentes. Essas respostas são essenciais para orientar investimentos públicos e garantir melhorias reais no transporte urbano.
