Como a tomografia sônica ajuda a entender a saúde das árvores
Observar a copa ou o tronco de uma árvore não basta para garantir a segurança das pessoas que circulam sob ela. No ambiente urbano, danos internos invisíveis podem comprometer a estrutura de exemplares históricos, colocando em risco quem passa por perto. Em Curitiba, essa preocupação ganhou destaque após dois episódios recentes que alarmaram a população: em 13 de junho, a fonoaudióloga Ana Beatriz Cruz, de 22 anos, sofreu uma grave lesão na coluna ao ser atingida por um galho na Praça Osório, comprometendo seus movimentos e exigindo tratamento longo. Pouco depois, uma árvore de grande porte caiu sobre uma estação-tubo na Praça Rui Barbosa, assustando passageiros do transporte coletivo.
O que revela a tomografia sônica portátil
Em ambos os casos, não havia sinais externos claros de deterioração no tronco, evidenciando a complexidade do monitoramento das árvores urbanas. Para diagnosticar a saúde interna da madeira sem causar danos, a Prefeitura de Curitiba e a Universidade Federal do Paraná (UFPR) utilizam a tomografia sônica portátil. Esse equipamento não destrutivo usa ondas sonoras para criar imagens em 2D e 3D que funcionam como um raio-X colorido do interior do tronco.
O processo começa com a fixação de sensores na casca da árvore, posicionados em pontos identificados visualmente, como buracos, fungos ou cicatrizes. Um técnico aplica leves batidas com um martelo em um sensor emissor, e as ondas sonoras percorrem o interior da madeira até chegarem aos outros sensores. Como o som viaja mais rápido em madeira saudável e densa e diminui em áreas ocas ou degradadas, o sistema gera um mapa detalhado da condição interna da árvore.
A importância da interpretação especializada
Angeline Martini, engenheira florestal e professora do Departamento de Ciências Florestais da UFPR, destaca que a tecnologia não dispensa o olhar técnico especializado. “Assim como uma tomografia humana, o equipamento entrega imagens, mas o diagnóstico da gravidade depende do profissional capacitado. Curitiba tem mais de 200 espécies de árvores, cada uma com características e densidade próprias. Sem entender a fisiologia e os esforços a que elas estão sujeitas, os dados são insuficientes”, explica.
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Fonte: soudebh.com.br
Além disso, a professora esclarece que a presença de cavidades internas não significa necessariamente que a árvore deve ser removida. O laudo da tomografia orienta a equipe técnica a optar por intervenções que preservem o exemplar, como podas estratégicas, escoramentos ou amarrações com cabos de aço, sempre que possível.
Equilíbrio entre segurança e preservação
“Lidamos com seres vivos que têm ciclos naturais. Remover árvores urbanas é necessário para garantir segurança, mas o desafio é equilibrar isso com a manutenção dos benefícios que elas oferecem”, afirma Angeline Martini. Do lado da Prefeitura, Érica Costa Mielke, diretora de Licenciamento e Fiscalização da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA), explica que as informações coletadas pela tomografia são integradas ao Sistema Integrado de Monitoramento Ambiental (SIMA).
A escolha das árvores a serem examinadas considera sinais de lesão, valor ecológico — como a proteção às araucárias — e localização. “Uma araucária comprometida em uma área isolada tem urgência menor do que uma árvore no centro de uma praça movimentada”, exemplifica Érica.
Raízes danificadas são o maior risco para quedas
Um ponto crucial ressaltado pela diretora da SMMA é que a queda de árvores na cidade raramente está ligada a doenças no tronco. Estudos indicam que a maioria das quedas decorre de rupturas nas raízes, área que a tomografia sônica não analisa.
Intervenções humanas inadequadas, como reformas de calçadas que cortam raízes ou restringem seu crescimento, comprometem a estabilidade das árvores. “Muitos acreditam que é normal cortar raízes durante obras, mas elas são a base física da árvore. Sem espaço ou com raízes cortadas, a árvore perde equilíbrio e pode cair mesmo estando saudável”, alerta Érica Mielke.
Esse cenário evidencia que, apesar dos avanços tecnológicos no monitoramento arbóreo, a segurança urbana depende também do cuidado com o solo e a base das árvores, além do uso adequado das ferramentas disponíveis.
