Trump desafia governança global da inteligência artificial
Durante a abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, criticou fortemente as tentativas de estabelecer uma regulação global para a inteligência artificial (IA). Ele afirmou que seu país rejeita qualquer plano que vise criar um sistema globalista de controle da tecnologia. “Os Estados Unidos também rejeitam totalmente qualquer tentativa de criar um esquema globalista para controlar a inteligência artificial”, declarou em seu discurso nesta quarta-feira (22).
Esse posicionamento se insere no contexto de uma disputa entre as principais potências mundiais pela influência sobre a cadeia produtiva da IA. Os EUA apostam em um modelo restrito, baseado em “parceiros confiáveis” para gerir o desenvolvimento da tecnologia. Em contrapartida, a China lidera uma iniciativa que propõe a governança da IA por meio de sistemas de código aberto, convidando todas as nações a participarem e possibilitando o acesso amplo à tecnologia por empresas e organizações.
Impactos da disputa entre EUA e China na corrida da IA
O especialista Ettore Arpini, fundador da organização Plures, que apoia profissionais de inteligência artificial, apontou que a posição de Trump vai na contramão de várias iniciativas internacionais, inclusive na ONU, que buscam regulamentar o setor para evitar que empresas atuem sem qualquer supervisão. “Isso é totalmente contrário ao movimento de outros países de formar uma aliança de potências médias para colaborarem, para trazerem de novo um multilateralismo e criarem um modelo de governança e de regulamentações internacionais para IA”, explicou Arpini.
Além disso, Trump declarou que os Estados Unidos não pretendem impor limites ao avanço da IA. Para ele, quem dominar essa tecnologia será o “vencedor” da próxima revolução tecnológica. “No momento, estamos muito à frente da China e de todos os outros. E vamos manter essa vantagem. Vamos manter uma postura firme e decidida. Não vou sufocar o crescimento de algo que será maior do que a Revolução Industrial”, afirmou o presidente.
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Essa declaração ocorre pouco depois de líderes da indústria de IA nos Estados Unidos sugerirem uma desaceleração no ritmo dos desenvolvimentos mais avançados, diante da rapidez com que esses modelos evoluem em comparação com os mecanismos de segurança e controle existentes.
Economistas também alertam para o risco de uma “bolha” no setor, motivada pelo volume elevado de investimentos e incertezas sobre o retorno financeiro desses aportes. Isso poderia desencadear crises financeiras com impactos na economia global. Um relatório do Banco de Compensações Internacionais (BIS) destaca que “a intensa competição aumenta o risco de as empresas alocarem recursos em excesso a projetos de investimento com retornos ainda incertos, tornando todas as empresas vulneráveis a decepções nos resultados da IA”.
Discussão sobre o termo “superinteligência” e a narrativa dos EUA
No mesmo discurso na ONU, Trump anunciou a intenção de renomear a inteligência artificial para “superinteligência”, argumentando que o termo “artificial” sugere uma inteligência falsa. “Daqui para frente, será oficialmente chamada de superinteligência. Mudamos o nome porque o uso da palavra ‘artificial’ faz a inteligência parecer falsa”, afirmou.
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Fonte: soudesaoluis.com.br
Para o especialista Ettore Arpini, essa mudança de nomenclatura pode dificultar a compreensão pública e fortalecer a posição dos Estados Unidos na corrida pelo domínio global da IA. “Tem uma dimensão política também, porque em Washington tem uma narrativa de que os Estados Unidos liderem a IA. Chamar a AI de superinteligência também ajuda a construir essa narrativa que favorece os EUA”, comentou.
Arpini ressalta que o foco não deve estar na definição se a tecnologia é ou não uma inteligência, mas sim nas capacidades desses sistemas, seu grau de autonomia, quem os governa e os impactos sociais resultantes, além do preparo dos países envolvidos.
O cientista brasileiro Miguel Nicolelis, crítico da inteligência artificial, destaca que o termo “inteligência” na IA é uma metáfora ou estratégia de marketing para sugerir que a tecnologia possui capacidades humanas que, na prática, não domina. Essa visão valoriza os serviços oferecidos pelas grandes empresas de tecnologia, mas pode gerar mal-entendidos sobre a real natureza da tecnologia.
