Hospital de Clínicas da UFPR assume papel inovador
Pela primeira vez no Brasil, um hospital público federal conquistou o credenciamento para desenvolver biofármacos — medicamentos cujo princípio ativo é produzido por organismos vivos — dentro de suas próprias instalações, em colaboração direta com a indústria farmacêutica. O Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR), em Curitiba, é responsável por essa iniciativa inédita que o transforma de um centro de testes para tecnologias prontas em um ator ativo na criação dessas soluções.
Parceria direta com a indústria farmacêutica
Agora, empresas podem apresentar desafios reais ao HC-UFPR, como a necessidade de tratamentos inovadores para o câncer, e trabalhar lado a lado com os pesquisadores do hospital para desenvolver novas soluções. Essa mudança amplia o potencial de inovação, antes centrado apenas em testes clínicos.
O credenciamento foi concedido pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), que reconheceu o HC-UFPR como Unidade de Pesquisa Clínica e Inovação em Biofármacos — categoria que inclui vacinas e tratamentos para câncer e doenças autoimunes. O hospital superou concorrentes renomados como o Hospital Israelita Albert Einstein e o Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP).
Fatores que destacaram o HC-UFPR
De acordo com Rogério Fraga, gerente de desenvolvimento de ciência e inovação do HC-UFPR, o diferencial está na combinação de atendimento de alta complexidade, pesquisa clínica, ensino universitário e capacidade de inovação concentrados em um mesmo espaço. “O credenciamento reconhece que um hospital público universitário pode não apenas testar tecnologias, mas também participar ativamente do seu desenvolvimento”, afirma.
Outro ponto relevante é a nova dinâmica com a indústria, que passa a desenvolver soluções dentro do hospital. “A indústria poderá trazer desafios concretos e desenvolver soluções junto com nossos pesquisadores”, explica Fraga. Isso inclui medicamentos biológicos, novas formulações e ferramentas de diagnóstico relacionadas aos biofármacos.
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Financiamento e benefícios para o SUS
O modelo de credenciamento permite que parte dos recursos de pesquisa seja financiada pela Embrapii sem a necessidade de devolução, reduzindo custos para as empresas e facilitando a transformação do conhecimento científico em produtos que podem chegar ao mercado brasileiro — inclusive ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A nova unidade integra o Centro de Pesquisa e Inovação do HC-UFPR, o Departamento de Farmácia e o Departamento de Informática da universidade. Segundo Fraga, trata-se de um “laboratório vivo”, capaz de identificar rapidamente prioridades de pesquisa diante de problemas reais de saúde, como ocorreu durante a pandemia da covid-19.
Impacto direto para pacientes e avanço na pesquisa
Para Fraga, aproximar o desenvolvimento tecnológico da rotina hospitalar ajuda a identificar problemas clínicos com mais agilidade. “No médio e longo prazo, isso pode significar maior acesso a medicamentos inovadores, produção nacional de tecnologias estratégicas e redução da dependência de produtos importados”, avalia.
Vaneuza Araújo Moreira Funke, chefe do Setor de Pesquisa e Inovação do Complexo Hospital de Clínicas (CHC-UFPR), destaca que o credenciamento permite monitorar o desempenho dos medicamentos após aprovação, em condições reais de uso. “Temos a capacidade de analisar esses dados em mundo real, em vida real, já após a aprovação”, explica. Esse diferencial atrai mais empresas interessadas em testar novos medicamentos ou desenvolver moléculas em parceria com o hospital.
Ela também relaciona o avanço da pesquisa à melhoria da qualidade do atendimento. “Quanto mais a pesquisa está integrada ao ambiente clínico, maior a excelência no cuidado, pois o atendimento passa a incorporar todo o conhecimento gerado”, afirma.
O HC-UFPR tem um histórico de pioneirismos, como o primeiro transplante de medula óssea da América Latina, realizado em 1979, e procedimentos atuais de ponta, como a cirurgia fetal, executada dentro do SUS.
Fraga reforça que o credenciamento fortalece a posição do Brasil no desenvolvimento de biofármacos, abrindo caminho para mais inovações na área da saúde pública.
Paulo (USP)
