Áudios Revelam Suspeitas de Conluio em Licitação
A Justiça do Paraná decidiu quebrar o sigilo bancário do empresário Adolfo Jachinski Neto, que é investigado por suposta participação em um esquema de fraude em uma licitação milionária da Secretaria de Segurança Pública do Estado. O juiz Leandro Leite Carvalho Campos, da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba, ressaltou que os indícios foram embasados em áudios gravados por outro empresário, apontando para possíveis combinações de resultados e direcionamentos na licitação, cujo montante totaliza quase R$ 4 milhões.
A matéria sobre o caso foi divulgada na última quinta-feira (16) pelo jornalista Lauro Jardim, do O Globo, e confirmada pela RPC. Jachinski Neto é o proprietário da EBTS (Empresa Brasileira de Tecnologias e Sistemas), que venceu a licitação aberta em 2019 para aquisição de unidades de treinamento de tiro para a Polícia Civil do Paraná.
O Papel dos Áudios na Investigação
As gravações que desencadearam a investigação foram realizadas por Jonny Rocha Braga, que em seu depoimento afirmou que as empresas atuavam em conjunto para criar uma ilusão de competitividade, enquanto os resultados já estavam decididos. O depoente relatou que tinha conhecimento prévio sobre a licitação e a certeza da vitória da EBTS. “O depoente afirmou ter sido informado previamente acerca da futura licitação e da suposta certeza de vitória da empresa EBTS”, observou o juiz.
Braga entregou à Polícia Civil cinco áudios nos quais, segundo a decisão, são discutidos ajustes no processo licitatório, elevação de valores contratados, além de menções à suposta influência de agentes públicos e membros da comissão de licitação.
Um dos trechos mais preocupantes foi registrado na véspera da licitação. Jachinski Neto detalha como a disputa seria realizada para parecer legítima: “Vou fazer uns três, quatro lances. O Márcio vai dar uns três de quatro lances baratinho […] para nós fazer uma disputa, para não ter problema para você”, diz ele.
Menções a Membros do Governo
Nos diálogos, Jachinski Neto faz referências explícitas a dois secretários do governo do Paraná: Guto Silva, que na época era Secretário-Chefe da Casa Civil, e Rômulo Marinho Soares, Secretário de Segurança Pública entre 2019 e 2022. O empresário ainda menciona “pagamentos destinados a terceiros”, que, segundo ele, teriam como objetivo financiar campanhas políticas.
Adolfo descreve Guto Silva como a figura central, referindo-se a ele como “a mão direita do cara”, em alusão ao governador Ratinho Jr (PSD). Segundo Jachinski, Silva controla a agenda do governador e tem influência sobre três secretarias: Segurança, Detran e Celepar (Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná).
Uma conversa reveladora entre o empresário e um assessor de Guto Silva mostra a intenção de fazer “acertos” financeiros. Jachinski Neto diz: “O cara lá dele falou pra mim: ‘Vamos fazer o acerto aí, tal e coisa, vamos fazer o projeto, tal e coisa, daí nós temos que puxar dinheiro pra campanha'”.
Implicações Legais e Respostas dos Envolvidos
Diante das evidências coletadas, o juiz destacou que os diálogos gravados indicam um direcionamento claro da licitação e uma simulação de competitividade entre as empresas. O magistrado enfatizou que, apesar das suspeitas, as autoridades ainda não conseguiram comprovar se pagamentos indevidos foram realizados e quem seriam os destinatários. A quebra do sigilo bancário visa aprofundar a investigação.
O governo do Paraná, através de uma nota oficial, declarou que possui rigorosas normas de controle e transparência, e que não responderá por áudios atribuído a desavenças entre empresários. A licitação ocorrida há sete anos, segundo a nota, foi feita de maneira transparente e os materiais adquiridos estão em uso pela Polícia Civil, com a contratação validada pelo Tribunal de Contas do Estado.
Por sua vez, Guto Silva afirmou não conhecer o empresário mencionado e negou qualquer relação com a empresa, ressaltando que a licitação foi conduzida sem sua participação. Jonny Rocha Braga, que fez as gravações, defendeu sua posição, afirmando que sua intenção era apenas comprovar uma dívida antiga com Jachinski Neto, e não acusar autoridades. “As tratativas mencionadas foram sempre de responsabilidade do Adolfo”, concluiu.
