Impactos climáticos ameaçam produção de soja no Paraná
A safra de soja no Paraná enfrenta um cenário complexo devido ao excesso de chuvas durante o início do plantio, agravado pela perspectiva de um evento intenso do fenômeno El Niño ao longo do ciclo produtivo. Levantamento da Serasa Experian, divulgado em 28 de outubro, indica que o fenômeno pode reduzir a produção estadual em 2,3 milhões de toneladas em comparação a um cenário neutro, sem influências climáticas adversas.
Com essa projeção, o Paraná figura como o terceiro estado com maior expectativa de redução na safra, atrás apenas de Mato Grosso e Goiás. Para o Brasil, o estudo aponta que a produção total de soja pode recuar 9,7% em relação ao potencial estimado sob condições climáticas normais.
Chuvas intensas dificultam plantio e elevam custos
Até 26 de outubro, o Departamento de Economia Rural (Deral) registrava 62% da área de soja planejada já plantada no Paraná, o que representa cerca de 3,56 milhões de hectares dos 5,74 milhões previstos. Porém, as fortes chuvas do início de novembro atrasaram o andamento do plantio nas áreas restantes, com o solo encharcado impedindo o acesso de máquinas e dificultando a semeadura.
O excesso de umidade nas áreas já plantadas também pode comprometer o estabelecimento das plantas. O engenheiro agrônomo Giuseppe Marcantonio, especialista em perícia judicial, explica que chuvas intensas favorecem a compactação e o selamento do solo, sobretudo em áreas expostas, o que dificulta o manejo adequado das lavouras.
Replantio pressiona a margem dos produtores
A necessidade de replantio surge principalmente em função da redução da população de plantas, aspecto essencial para manter a produtividade. Embora a soja apresente certa capacidade de compensar falhas no estande, essa adaptação não garante rendimento em todas as situações.
De acordo com Marcantonio, o custo apenas com sementes para o replantio pode chegar a R$ 600 por hectare. Considerando o preço da soja em R$ 130 por saca, esse valor corresponde a cerca de 4,6 sacas por hectare. Além disso, despesas com combustível, fertilizantes e outros insumos aumentam ainda mais os custos, afetando diretamente a rentabilidade dos produtores.
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El Niño eleva chuvas e reduz luminosidade na região Sul
Durante episódios do El Niño, a região Sul do país costuma registrar chuvas mais frequentes. Para a soja, o excesso de água combinado com menor incidência de luz solar prolonga a fase vegetativa da cultura e favorece o aparecimento de doenças em ambientes úmidos.
Nas regiões de Campo Mourão e Oeste do Paraná, onde o plantio ocorre em setembro, a preocupação se estende até a colheita. Chuvas persistentes em janeiro podem atrasar a colheita, prejudicando a qualidade dos grãos e aumentando os riscos de ardidos e mofados.
Tempestades provocam danos em propriedades e municípios
Nos dias 1º e 2 de novembro, tempestades com ventos fortes e granizo atingiram as regiões Noroeste, Oeste e Centro-Sul do Paraná. A Defesa Civil Estadual registrou 1.277 pessoas afetadas e 350 residências danificadas em 17 municípios.
Em Maringá, ventos de até 96,3 km/h no aeroporto motivaram a prefeitura a decretar estado de calamidade pública. Em Marquinho, cerca de 270 casas foram atingidas por granizo, impactando mais de mil moradores. Mercedes também registrou prejuízos relevantes, incluindo danos superiores a R$ 600 mil em uma cooperativa rural.
As chuvas acumuladas em poucas horas ultrapassaram 60 milímetros em Palotina e Cianorte, indicando maior instabilidade climática. A previsão aponta para possível formação de ciclone extratropical e riscos de supercélulas entre os dias 4 e 5 de novembro.
Quebra na safra afeta pagamento de financiamentos rurais
Os efeitos do clima não atingem somente a produção, mas também as finanças do Agronegócio. O aumento dos custos com replantio somado à redução da produtividade pode comprometer a capacidade dos produtores de honrar seus compromissos financeiros.
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O advogado Raphael Condado, especialista em direito do agronegócio, destaca a importância de registrar detalhadamente os danos para possibilitar cobertura por seguro ou renegociação de financiamentos. Entre os documentos recomendados estão laudos técnicos, fotos com data e localização, registros meteorológicos e decretos municipais de emergência.
Produtores com seguro rural ou Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) devem cumprir rigorosamente os prazos e procedimentos para comunicar os prejuízos. Intervenções nas áreas afetadas antes da vistoria podem dificultar a comprovação dos danos.
Documentação e avaliação técnica orientam decisões sobre crédito e replantio
Segundo Condado, quando os prejuízos comprometem o pagamento das dívidas, é possível solicitar prorrogação do crédito rural, observando as normas do Manual de Crédito Rural e a Súmula 298 do Superior Tribunal de Justiça. A recomendação é formalizar os pedidos por escrito, acompanhados das evidências dos impactos.
Na negociação, os produtores devem analisar as garantias exigidas e cláusulas contratuais, especialmente aquelas que envolvem alienação fiduciária ou limitações à contestação dos valores. Com a safra ainda em implantação, avaliações técnicas precisas serão fundamentais para dimensionar perdas, definir a necessidade de replantio e organizar os custos do ciclo 2026/27.
O monitoramento constante das condições climáticas e a documentação dos danos são essenciais para apoiar a gestão produtiva e financeira das propriedades no Paraná, que enfrentam um cenário desafiador diante da influência do El Niño.
