Balas de Goma e Desmoronamentos: Um Enigma Teatral
O espetáculo Balas de Goma Numa Terra que Desmorona, em cartaz no Mini teatro Guaira, provoca a reflexão ao unir dois elementos aparentemente distantes: a doçura das balas de goma e o cenário de desmoronamentos que remete a tragédias como as de Mariana e Brumadinho. A peça, que só retorna ao palco no próximo ano, convida o espectador a decifrar esse enigma por meio da atuação sensível de Fátima Ortiz, Pedro Bonacin e ErtaAle (Alexandre Bonin).
A origem da bala de goma remonta ao Egito, há cerca de dois mil anos A.C., quando preparos gelatinosos com goma arábica eram comuns. Na Turquia, os lokum – conhecidos como “delícia turca” – foram aperfeiçoados no século XVIII pelo confeiteiro Bekir, que fazia doces para o sultão Abdul Hamid. No Brasil, especialmente em Curitiba, essa iguaria ganhou presença no roteiro do espetáculo, tornando-se símbolo de uma experiência que mistura sabor e simbolismo.
A Trama da Existência e o Teatro como Espaço de Sobrevivência
As balas e os desmoronamentos representam, no palco, um mistério entrelaçado às falas dos atores, que exploram temas como solidão, perdas, luto e saudade. A complexidade dessas emoções reflete o enigma da existência humana, onde nada é o que parece. O espetáculo sugere uma resistência silenciosa: mesmo diante de tragédias e tempestades internas, a vida insiste em continuar. O título da peça remete ao poema de Thiago de Melo, “Faz Escuro Mas Eu Canto”, reforçando essa mensagem de resiliência e esperança.
Produzida em parceria com a Sim Companhia de Teatro e o Palco Escola, a montagem celebra os 31 anos da Escola de Teatro Pé no Palco, em Curitiba. Sob a direção de Vanessa Corina, os textos do grupo foram adaptados e unidos em uma narrativa única. A trilha sonora, executada ao vivo pelos músicos e atores Noe Carvalho e Leon Adam, é parte integrante da atmosfera, conferindo identidade a cada cena e aprofundando a imersão do público.
Leia também: Baile das Caixa em Curitiba: Dancehall e Cultura Negra em Noite de Resistência
Leia também: Reabertura do Teatro Vila Velha Marca Nova Era para a Cultura em Salvador
Fonte: bahnoticias.com.br
Fátima Ortiz e a Construção de uma Metodologia Singular
Fátima Ortiz, idealizadora do projeto Pé no Palco, destaca que o processo criativo dessa montagem é também uma celebração da amizade e parceria que une os integrantes do grupo desde 2002, ano da estreia da companhia com a peça O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, no Festival de Teatro de Curitiba. Para ela, o trabalho é ao mesmo tempo prazeroso e angustiante, especialmente por lidar com temas como o luto e a finitude. Em 2024, enquanto se dedicava ao espetáculo, Fátima vivenciava uma mudança pessoal significativa, deixando o apartamento onde morou por 16 anos com seu marido, o ator e diretor Enéas Lour, falecido naquele ano.
A atriz aprofunda sua reflexão sobre arte e educação, ressaltando que vivemos um momento de transformações profundas, que exigem novas formas de pensar o planeta, as relações humanas e a convivência criativa. Essa perspectiva embasa sua atuação como atriz, diretora e arte-educadora, e a metodologia que desenvolveu para o ensino-aprendizagem do teatro, que já formou diversas gerações de artistas.
Legado e Inclusão na Cena Contemporânea
Os companheiros de Pé no Palco, Pedro Bonacin e ErtaAle, também formados pela escola e hoje gestores dos cursos livres, destacam a influência de Fátima como uma mestra que continuamente provoca seus alunos a questionar o sentido do fazer teatral. Eles ressaltam sua capacidade de estar atualizada com as novidades do mundo, sem perder o vínculo com a ancestralidade da arte. Esse equilíbrio se manifesta no espetáculo, que inclui cenas em que Fátima aparece vestida de Rainha ao lado de um índio e um negro, simbolizando uma clara mensagem de inclusão.
Leia também: Festival Acessa BH 2026 promove teatro, performance e oficinas gratuitas em Belo Horizonte
Fonte: belzontenews.com.br
Leia também: Festival Kaverada: 16 Anos de Resistência Cultural no Crato com Rock, Cinema e Literatura
Fonte: soudejuazeiro.com.br
Fátima Ortiz é reconhecida nacionalmente como uma das principais referências do teatro infantil no Brasil. Além de atriz e diretora, é dramaturga, gestora cultural e arte-educadora, com uma trajetória marcada por premiações e pela publicação de diversos livros, alguns em parceria com Enéas Lour e Rosy Greca, responsável pelas trilhas sonoras das montagens.
O Teatro como Espaço de Transformação Social
A trajetória dos atores Pedro Bonacin e ErtaAle ultrapassa o palco, envolvendo também atuações no audiovisual e pesquisas que exploram a interseção entre teatro e música. Ambos coordenam atualmente os cursos livres do Pé no Palco, onde cultivam a formação de novos artistas. As ações sociais promovidas pelo projeto são resultado da aproximação entre artistas e comunidades, reunindo famílias, educadores, comerciantes e jovens em torno da convicção de que a arte e o teatro transformam realidades e contribuem para um mundo mais justo.
Esse trabalho, que alia idealismo e prática concreta, reflete o compromisso de Fátima Ortiz e sua equipe em manter viva a chama da utopia, mesmo diante das dificuldades. O espetáculo Balas de Goma Numa Terra que Desmorona é um testemunho dessa resistência, onde a doçura das balas contrasta com a dureza das perdas, convidando o público a uma experiência sensível e necessária.
