Colagem além da técnica: a proposta da Bienal de Curitiba
Como nomear algo que parece novo, mas que sempre esteve presente? “colagem continuada“, a mais recente exposição da 16.ª Bienal Internacional de Curitiba – LIMIARES, abre essa reflexão ao apresentar uma abordagem que ultrapassa o simples recorte ou justaposição visual. A partir do dia 17 de setembro, às 17 horas, na Sala Adalice Araújo, espaço da Secretaria de Estado da Cultura (SEEC) dentro do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC Paraná), a mostra reúne 19 artistas que ampliam o conceito de colagem para além da técnica, entendendo-a como um gesto de aproximar pessoas, pensamentos e referências.
Uma montagem que é encontro e diálogo
Curada por Jhon Voese e Mário de Alencar, a exposição não segue uma fórmula única. Ela se constrói como uma operação contínua de montagem, onde obras antigas conversam com pesquisas recentes, e onde o ato de curar se transforma em uma verdadeira colagem. “Colagem é o impacto fulminante do passado com o futuro”, reforça Mário de Alencar, enquanto Voese complementa que “a colagem não começa, e a colagem nunca termina. A colagem continua”. Esse processo resulta em uma multiplicidade de procedimentos: papéis que encontram tecidos; imagens que, deslocadas de seus contextos originais, ganham novos sentidos; recortes que acrescentam volume à pintura; restos e sobras que deixam de ser descartes para virar protagonistas.
Diversidade que desafia definições
Essa pluralidade impede que o gênero seja reduzido à sua forma mais reconhecida. Colagem é muito mais do que um simples recorte sobreposto. É um pensamento que opera pela aproximação, pela ruptura e pela recombinação. Imagens podem se esconder parcialmente, materiais carregam memórias próprias, e aquilo que parecia destinado ao esquecimento ressurge em novas posições. O conceito se estende desde sobras que guardamos em potes plásticos até revistas recortadas, fitas cassete copiadas, filmes pirateados, farofas de domingo e roupas remendadas.
Trajetória histórica e ressignificação contemporânea
A história da colagem se entrelaça a momentos decisivos da arte moderna e contemporânea. Desde Picasso e os cubistas, que incorporaram fragmentos do cotidiano em suas obras, até os dadaístas que usaram o corte como crítica social, passando por artistas como Hannah Höch, que desmontaram a sociedade visualmente com imagens da imprensa, o gênero atravessou fluxos como Fluxus, pop art e experiências que dissolveram barreiras entre pintura, fotografia, objeto e palavra.
Referências e o panorama brasileiro
Os curadores recuperam essas influências sem estabelecer uma genealogia rígida, destacando que a própria história da arte funciona como uma colagem de ideias acumuladas, contraditórias e em transformação. No Brasil, essa lógica encontra terreno fértil, especialmente na produção de artistas como Rosanas, Reginas e Lygias, que desafiavam as divisões entre objeto e experiência, arte e cotidiano, matéria e participação. Para Voese, “a colagem só cresce, o de cima esconde o que o de baixo tece”. Alencar acrescenta que a colagem pode ser tanto uma resposta aos excessos visuais da Revolução Industrial, quanto um mecanismo ancestral de apropriação cultural.
Colagem e o conceito LIMIARES da Bienal
É nesse ponto que a exposição dialoga com o tema da 16.ª Bienal Internacional de Curitiba, que investiga as fronteiras entre humano e tecnológico, material e imaterial, natureza e cultura, passado e futuro. Na colagem, fotografias antigas passam a ser materiais contemporâneos, retalhos carregam memórias e, ao mesmo tempo, integram novas composições. Cada fragmento mantém sua identidade original, mas também se transforma ao se relacionar com os demais.
Uma reflexão sobre a colagem brasileira
Voese revela que, ao longo do processo, sua ideia inicial foi sendo enriquecida por novas camadas: “É impossível ter uma ideia que não seja fruto de uma colagem daquilo que se tinha e daquilo que veio”. Alencar questiona o papel da colagem brasileira, marcada pela antropofagia vanguardista e pela mistura cultural, para a arte contemporânea. A resposta, simples e contundente, é que colagem é aquilo que chamarmos de colagem.
Detalhes da exposição e da Bienal
Reunindo artistas como Alexandre Cruz Sesper, Alysson Mazzochin, Ana Camargo, André Bergamin, Annette Skarbek, Arnaldo Baptista, Bia Franzolin, Bomju Coelho, Castrenhos (Gabriel Castro), Dedé Ribeiro, Emerson Persona, Guilherme Lepca, Joana de Lima, Juan Pablo Mapeto, Lucas Fier, Marilene Ropelato, Mário de Alencar, Moira Lacowicz e Yara Osman, a mostra ressalta a força da multiplicidade e da convivência entre elementos distintos.
A 16.ª Bienal Internacional de Curitiba é uma das principais plataformas de arte contemporânea da América Latina, realizada desde 1993. Promove o diálogo internacional e o encontro entre artistas locais e globais, ocupando museus, galerias e espaços públicos da cidade. Sua última edição presencial atraiu mais de um milhão de visitantes, consolidando Curitiba como um polo cultural relevante.
O evento é realizado pelo Ministério da Cultura, Governo Federal, MON, MAC Paraná, Paraná Festival e Secretaria de Estado da Cultura (SEEC) do Paraná, com apoio da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) e Prefeitura de Curitiba. O patrocínio é da Aurora Coop.
Serviço da exposição
Colagem Continuada
Curadoria: Jhon Voese e Mário de Alencar
Local: Sala Adalice Araújo – Secretaria de Estado da Cultura / MAC Paraná
Endereço: Rua Ébano Pereira, 240, Centro
Abertura: 14 de setembro
Visitação: segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h30 às 18h
Entrada gratuita
