Desafios Logísticos e Oportunidades no Agronegócio
A recente instabilidade no Estreito de Hormuz trouxe sérias preocupações para o agronegócio brasileiro, uma vez que essa região é fundamental para a logística de entrega de produtos e insumos ao Oriente Médio e à China. A insegurança gerada pelo atual panorama político e militar complica os planos das empresas brasileiras que têm na rota um caminho estratégico para escoar suas exportações. De acordo com especialistas, a situação exige um ajuste nas operações logísticas, com a imposição de uma ‘taxa de guerra’ para os navios que buscam rotas alternativas.
O Irã, que anteriormente havia permitido a passagem de embarcações pela região, reverteu essa decisão, mantendo o estreito fechado neste final de semana. Essa decisão impacta diretamente as operações de exportação do Brasil, que em 2025, já havia alcançado a impressionante marca de US$ 169,2 bilhões em exportações. Deste total, US$ 12,4 bilhões foram destinados ao Oriente Médio, representando 7,4% do total exportado pelo país.
Condições Desfavoráveis para Exportação
Para Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as restrições em Hormuz criam enormes desafios para manter os volumes de exportação para essa região. Segundo ele, os principais impactos para as empresas se relacionam ao aumento dos custos e ao esforço logístico necessário para viabilizar entregas por rotas alternativas. Santin expressa otimismo, afirmando que, apesar das dificuldades, há a expectativa de que um acordo seja alcançado em breve, mantendo as vendas.
A rota alternativa que tem sido utilizada envolve o escoamento das commodities agrícolas pelo Mar Vermelho, passando pelo Canal de Suez até o estreito de Bab el-Mandeb. Embora essa trajetória seja considerada de alto risco, tornou-se a opção viável para muitas embarcações. Devido a ameaças de ataques por parte de rebeldes houthis no Mar Vermelho, algumas embarcações optaram por desviar ainda mais, contornando o Cabo da Boa Esperança, localizado no extremo sul da África.
Dependência de Insumos e Impacto na Safra
O Irã, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos se destacam como destinos principais para as exportações brasileiras de carne de frango e milho. Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper, destaca a importância dessas relações, afirmando que as empresas brasileiras eventualmente encontrarão meios para atender à demanda, uma vez que esses países dependem fortemente do Brasil para suprir suas necessidades.
No entanto, Jank alerta que o verdadeiro problema reside na área de insumos. O Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes, e o estreito de Hormuz desempenha um papel vital na exportação desses produtos. Aproximadamente 40% das exportações globais de ureia, 30% de amônia, 24% de fosfatos e 50% de enxofre transitam por essa região, e a interrupção pode causar um desabastecimento significativo de insumos agrícolas no Brasil, com implicações diretas nos preços dos alimentos no segundo semestre.
Aumento nos Custos e Desafios Logísticos
A situação dos fertilizantes é particularmente preocupante, segundo Jank. A abertura do estreito é crucial para a chegada desses materiais ao país, que são essenciais para o início da safra em setembro. ”O fertilizante deve chegar antes; essa é a grande preocupação”, resume o especialista.
A MBRF, responsável pelas marcas Sadia e Perdigão, também relatou impactos significativos devido às restrições no estreito de Hormuz, com o tempo médio de entrega na região aumentando de 40 para mais de 60 dias, um aumento expressivo de pelo menos 50% nos prazos. Leonardo Dallorto, vice-presidente de mercado internacional e cadeia de suprimentos da empresa, mencionou que o aumento dos custos de frete, decorrente da ‘taxa de guerra’, e as despesas de logística terrestre e armazenagem, têm contribuído para elevar os preços.
