O impacto contínuo de “Cabeça Dinossauro” em Curitiba
Quarenta anos após transformar o desencanto político em um marco do punk rock brasileiro, os Titãs trouxeram a Curitiba, no sábado (18), a turnê comemorativa de “Cabeça Dinossauro”, seu terceiro álbum de estúdio. No Igloo Super Hall, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto revisitaram integralmente o álbum lançado em 1986, acompanhados por Beto Lee, Alexandre de Orio e Mário Fabre. O show não apenas revive a nostalgia, mas reafirma a pertinência dessa obra, uma vez que temas como abuso de autoridade, intolerância e violência institucional ainda fazem parte do cotidiano brasileiro.
A relevância que ultrapassa gerações
Enquanto muitos discos sobrevivem pela memória afetiva, “Cabeça Dinossauro” pertence a uma categoria diferente. Suas canções continuam ecoando nas ruas, nas instituições e no debate público, mostrando que a urgência do repertório permanece intacta, mesmo com as mudanças no país, na banda e no cenário cultural. Lançado durante a redemocratização, o álbum surgiu num contexto em que o Brasil tentava superar duas décadas de ditadura militar, mas ainda convivia com estruturas autoritárias presentes na sociedade.
Transformação sonora e política dos Titãs
Nesse ambiente contraditório, os Titãs deixaram de lado a leveza dos primeiros trabalhos e adotaram uma sonoridade áspera, marcada pelo punk e new wave. A mudança também refletia uma reação ao desempenho comercial do álbum anterior, “Televisão”. A agressividade das guitarras e a concisão das letras traduzem o clima político da época, sob a produção precisa de Liminha. O disco não oferece respostas fáceis, mas questiona com a brutalidade de quem já perdeu a paciência, especialmente em faixas como “Polícia”, “Igreja”, “Família” e “Estado Violência”.
Leia também: Kid Abelha Retorna com Turnê Histórica e Show Imperdível em Curitiba
Leia também: Kid Abelha Retorna para Turnê Histórica e Confirma Show na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba
A experiência do show em Curitiba
No show comemorativo, as 13 faixas são executadas na ordem original, preservando a narrativa do álbum e garantindo espaço para canções menos populares ao lado de sucessos como “AA UU” e “Bichos Escrotos”. A atual formação da banda entrega um espetáculo intenso, à altura das apresentações dos anos 80. A presença de três guitarras confere um som volumoso, sem perder a essência dos arranjos, enquanto a bateria mantém a contundência original.
Interpretação e superação dos integrantes
Sérgio Britto assume papel central na condução do show, imprimindo urgência às músicas sem tentar reproduzir artificialmente a juventude da época. Branco Mello, após tratamentos para tumores na garganta, incorpora a voz mais grave e áspera ao som da banda, acrescentando uma camada de desgaste que se harmoniza com as canções pesadas. Tony Bellotto também enfrenta desafios de saúde, e a presença dos dois reforça a dimensão da turnê: não é apenas uma repetição do passado, mas a continuidade de uma identidade construída em quatro décadas, mesmo diante de perdas e dificuldades.
A memória política e a renovação do público
Um momento forte do show foi a exibição de um documento da Divisão de Censura de Diversões Públicas que proibiu a execução integral de “Bichos Escrotos” em 1987. A reação do público ao cantar o verso censurado transforma a música em uma resposta coletiva, reforçando a memória política sem discursos longos. A diversidade de público também se destacou, com fãs jovens que descobriram a banda recentemente ou que acompanham sua trajetória desde a turnê de 2023, considerada um dos eventos musicais mais marcantes da década.
Leia também: Finais de Semana em BH: Mumu, Titãs e Teatro Infantil em Alta
Fonte: bh24.com.br
Setlist que reforça a identidade da banda
Após a execução completa de “Cabeça Dinossauro”, os Titãs mantêm a coerência conceitual com músicas mais pesadas de outros álbuns, como “Armas pra Lutar” e “Diversão” de “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, além de faixas de “Titanomaquia”. Essa escolha pode ter surpreendido parte do público que esperava canções mais melódicas, mas reforça a personalidade do espetáculo, evitando uma retrospectiva genérica e valorizando a face mais dura da banda.
Um espetáculo que valoriza a música e a narrativa
Com cerca de 25 músicas em 90 minutos, o show mantém ritmo direto, com poucos intervalos. A estrutura cênica e as imagens de telão dialogam com a apresentação sem roubar a atenção da banda. A turnê comemorativa foge da armadilha de repetir o passado como peça de museu, tratando “Cabeça Dinossauro” como uma obra viva que se adapta à formação atual sem perder sua essência.
Reflexões desconfortáveis sobre o Brasil atual
Ao final da apresentação, o que mais chama atenção não é apenas o excelente envelhecimento do disco, mas a constatação de que questões abordadas há quatro décadas, como violência e autoritarismo, continuam presentes no país. Essa permanência torna “Cabeça Dinossauro” e o show não apenas um registro musical, mas uma reflexão urgente sobre a realidade brasileira.
