Desafios da Segurança para Mulheres em Debate
Curitiba ainda enfrenta sérios desafios quando se trata da segurança das mulheres. A afirmação de que “enquanto a cidade não for segura para uma mulher negra, não será segura para nenhuma mulher” ecoou durante a audiência pública realizada na Câmara Municipal na última quinta-feira (5). O evento, promovido pela vereadora Laís Leão (PDT), atraiu a atenção para a vulnerabilidade feminina em diversos aspectos da vida urbana. Com 60% dos usuários do transporte público sendo mulheres, o assédio se torna uma questão preocupante, com relatos que mostram a necessidade urgente de mudanças.
A audiência, em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, contou com a presença de representantes do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e de organizações da sociedade civil. Realizada no auditório da Câmara e transmitida ao vivo no YouTube, a discussão abordou temas que vão desde a segurança até a mobilidade das mulheres na capital paranaense.
“Soluções voltadas às mulheres são essenciais”
Durante a audiência, Laís Leão enfatizou que é vital escutar as experiências das mulheres e discutir as desigualdades que permeiam suas vidas. “Pensar soluções voltadas para as mulheres é pensar em uma cidade igualitária”, ressaltou. A vereadora destacou que a perspectiva neutra, muitas vezes defendida, ignora as necessidades reais das políticas públicas voltadas para a segurança e bem-estar feminino.
A diretora de projetos do Ippuc, Daniela Mizuta, trouxe à tona a importância de integrar a perspectiva de gênero ao planejamento urbano. Segundo ela, a cidade deve ser vista como um organismo vivo, e as políticas devem abordar a situação das mulheres não como um tema isolado, mas como um aspecto transversal que permeia diversas áreas, como habitação e transporte.
“É fundamental que o planejamento urbano considere as necessidades específicas das mulheres. Se um ônibus demora muito para chegar, isso impacta a segurança e a tranquilidade delas ao se deslocarem”, destacou Laís Leão, enfatizando que a perspectiva de gênero deve guiar as decisões sobre mobilidade na cidade.
Iluminação Pública e Segurança nas Comunidades
O debate sobre a iluminação pública também foi um ponto central durante a audiência. Andreia Lima, líder comunitária do Parolin e criadora da Usina de Ideias, expressou sua preocupação com a falta de iluminação em áreas periféricas. “Ser mulher na periferia é desafiador. As favelas não têm a infraestrutura adequada para garantir a segurança das mulheres e das crianças”, protestou, ressaltando que a falta de iluminação expõe as moradoras a riscos constantes.
Em resposta, Daniela Mizuta sugeriu medidas como aumentar a iluminação nas ruas e melhorar a circulação nas calçadas, além de reduzir o espaço destinado a veículos. Políticas que considerem a segurança das mulheres ao planejar a infraestrutura urbana são essenciais para criar um ambiente mais seguro.
Propostas para Proteger os Trajetos das Mulheres
A professora Geisa Bugs, da UFPR, ressaltou a importância de assegurar rotas seguras para as mulheres, afirmando que muitas, com medo de assédios ou violência, evitam determinados trajetos e meios de transporte. “Essas táticas de autoproteção têm custos invisíveis, como a recusa de oportunidades de trabalho e estudo”, observou. Bugs defendeu uma abordagem abrangente, que inclui policiamento eficiente, transporte seguro e campanhas educativas para conscientizar a população sobre o respeito às mulheres.
Violência de Gênero: Um Problema Estrutural
A audiência também levantou questões alarmantes sobre feminicídio e violência de gênero. Relatos de participantes revelaram que muitas mulheres são vítimas dentro de suas próprias casas, e que o descaso diante da violência de gênero ainda é um problema significativo. A necessidade de uma mudança cultural foi um tema recorrente, com ênfase na conscientização dos homens sobre o respeito às mulheres. “Corpos femininos são corpos sem paz”, sintetizou uma das participantes, sublinhando que a luta contra a violência exige a transformação das estruturas sociais que toleram e normalizam a agressão.
