Um Capítulo Desconhecido da História das Cataratas
É surpreendente saber que um dos momentos mais significativos na história das Cataratas do Iguaçu não resultou de um decreto, mas sim de uma audaciosa cavalgada. Em 1916, Alberto Santos-Dumont, reconhecido mundialmente como o pai da aviação, percorreu mais de 300 quilômetros de densas florestas no Paraná com um objetivo claro: a defesa de uma ideia inovadora e simples: as magníficas quedas do Iguaçu não poderiam ser tratadas como propriedade privada.
A passagem de Santos-Dumont pela região aconteceu durante uma extensa viagem pela América do Sul, onde ele já tinha compromissos agendados nos Estados Unidos, Chile e Argentina. Ao visitar as Cataratas do Iguaçu pelo lado argentino, ele atravessou a fronteira para o Brasil e foi surpreendido ao descobrir que a imponente paisagem pertencia ao uruguaio Jesus Val, que tinha a concessão da antiga Colônia Militar do Iguassu. Essa revelação transformou sua viagem e, posteriormente, o futuro da região.
A Descrição Encantadora das Cataratas
Impressionado pela grandiosidade do cenário, Santos-Dumont não hesitou em compartilhar sua experiência em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 11 de maio de 1916. Ele descreveu o local com entusiasmo: “Ao chegar ao Salto do Iguassú, fiquei, efetivamente, maravilhado. Imagine uma imensa queda d’água oferecendo o mais bizarro e pitoresco deste mundo.” Comparando com as famosas Cataratas do Niagara, ele foi enfático: “O Iguassú, sem exagero, é uma maravilha. É muito maior que o Niagara.”
Aproveitando a estadia no Hotel Brasil, na então Vila Iguassu, hoje Foz do Iguaçu, Santos-Dumont fez uma cavalgada de aproximadamente seis horas até as Cataratas, acompanhado por Frederico Engel, o dono do hotel, e guias locais. Em meio a alagamentos, trilhas desafiadoras e pontes improvisadas, ele fortaleceu sua convicção de que aquela área necessitava urgente de proteção governamental.
Desafios e Determinação
O pesquisador Mário Rangel, que estuda a trajetória de Santos-Dumont, afirma que a viagem até Curitiba foi repleta de dificuldades. Santos-Dumont enfrentou pântanos, passou por áreas indígenas, teve noites mal dormidas, alimentação escassa e seguiu por seis dias em uma rota aberta pela Comissão Telegráfica do Exército. Mesmo diante de tantos obstáculos, seu objetivo de apresentar pessoalmente ao governo estadual sua proposta permaneceu intacto.
Em 8 de maio de 1916, Santos-Dumont foi recebido pelo então presidente do Paraná, Affonso Alves de Camargo, e formalizou seu pedido pela desapropriação das terras ao redor das Cataratas, propondo a criação de um parque público. Menos de três meses depois, seu pedido se transformou em política pública, e o Decreto nº 653, de 28 de julho de 1916, resultou na desapropriação de uma área de 1.008 hectares, criando as bases para a proteção oficial das quedas.
A Criação do Parque Nacional do Iguaçu
O Parque Nacional do Iguaçu, no entanto, só seria oficialmente criado mais de duas décadas depois, em 10 de janeiro de 1939, por meio de um decreto do presidente Getúlio Vargas. Mesmo assim, a ação inicial de Santos-Dumont é amplamente reconhecida como fundamental para a conservação ambiental e para o desenvolvimento do turismo na região.
Quarenta anos após a criação do parque, uma estátua em tamanho natural do inventor foi instalada a cerca de cem metros das quedas, por iniciativa de Elfrida Engel Nunes Rios, filha de Frederico Engel. O local rapidamente se tornou um dos pontos mais fotografados por turistas.
Reconhecimento Internacional
Em 1986, as Cataratas do Iguaçu foram reconhecidas como Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco. Hoje, o parque recebe cerca de 2 milhões de visitantes anualmente e se destaca entre os destinos turísticos mais procurados do Brasil, conforme dados do Ministério do Turismo.
Para Mário Rangel, o desinteresse por esse episódio pode ser atribuído à cobertura da imprensa da época, que era bastante limitada. “Esse noticiário local não alcançou outros lugares”, lembrou ele, destacando que a imprensa paranaense deu ênfase à cavalgada, enquanto os grandes centros não valorizaram o feito. Mais de um século depois, a história de Santos-Dumont finalmente começa a receber o devido reconhecimento na memória nacional.
