Transformação da Cadeia Leiteira no Paraná
O governo do Paraná está investindo na produção de queijos finos como uma estratégia inovadora para agregar valor à sua cadeia leiteira. A parceria com o Biopark, um parque tecnológico localizado em Toledo, resultou em um aporte de R$ 3,8 milhões para expandir o Projeto Queijos Finos para quatro novas regiões do estado. O objetivo é consolidar o Paraná como uma referência no mercado de queijos finos.
A proposta é bem direta, mas ao mesmo tempo ambiciosa: substituir a venda do leite in natura, que costuma enfrentar oscilações de preço, pela produção de queijos finos maturados. Esses queijos têm o potencial de multiplicar significativamente o valor obtido por litro de leite processado. De acordo com Tiago Mendes, diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Biopark, a expectativa é promissora.
“Por exemplo, o mesmo volume de leite que gera queijos tradicionais, que são vendidos entre R$ 30 e R$ 40 o quilo, pode ser transformado em queijos finos que chegam a custar entre R$ 120 e R$ 150. Em situações excepcionais, já ultrapassamos R$ 400 por quilo. O aumento na receita pode alcançar até 380%”, explica Mendes.
Multiplicação da Renda e Fortalecimento da Agroindústria
A expansão do projeto sinaliza uma mudança significativa, passando de um modelo focado na quantidade para um que valoriza qualidade e diferenciação no mercado. Mendes detalha que os produtores podem agregar de três a cinco vezes mais valor ao litro de leite, dependendo do tipo de queijo produzido e da estratégia de comercialização adotada.
“O retorno financeiro pode começar a surgir entre seis a dezoito meses após o início da produção. Queijos de maturação curta aceleram o fluxo de caixa, enquanto queijos de maturação longa podem ampliar a margem de lucro”, esclarece.
Os investimentos necessários para implementação na propriedade variam entre R$ 30 mil e R$ 150 mil, dependendo da tecnologia e da escala escolhidas. O interessante é que o projeto é gratuito, oferecendo também suporte técnico, protocolos já validados e orientação regulatória, além de assistência na busca por crédito.
Marcos Aurélio Pelegrina, diretor de Ciência e Tecnologia do estado, ressalta que essa iniciativa é parte de uma estratégia mais ampla de verticalização da produção agropecuária. “Ao transformar o leite in natura em queijos finos, conseguimos fortalecer a agroindústria local, reduzir a dependência de commodities e aumentar a competitividade do Paraná”, afirma.
Oportunidades de Crescimento com Indicação Geográfica
O plano de expansão inclui capacitação técnica, transferência de conhecimento, suporte regulatório e a construção das bases para certificações como a Indicação Geográfica. Pelegrina aponta que o sucesso do projeto será avaliado com base em indicadores como o número de produtores capacitados, agroindústrias que se instalarão, volume de queijos finos produzidos e o real impacto na renda rural.
“O projeto já teve um bom desempenho no oeste do Paraná e agora atinge 50% das mesorregiões do estado. À medida que os resultados econômicos e sociais se consolidam, vislumbramos possibilidades para novos investimentos, tanto públicos quanto privados”, afirma.
Além da renda gerada nas propriedades, a cadeia produtiva de queijos finos também pode impulsionar a geração de empregos nas áreas de processamento, maturação, logística, comercialização e até turismo rural. A criação de empórios especializados, rotas gastronômicas e restaurantes são exemplos de como esse ecossistema pode se desenvolver.
De acordo com Mendes, o mercado interno demonstra um crescimento consistente, impulsionado pela crescente demanda por produtos artesanais e de origem reconhecida. O estado do Paraná, por sua localização estratégica, possui fácil acesso aos centros consumidores do Sul e Sudeste, o que também abre portas para a inserção gradual em nichos internacionais.
Renovação nas Pequenas Propriedades com Agroindustrialização
A assessora estadual de Agroindústria do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), Karolline Marques da Silva, ressalta que o perfil do pequeno produtor paranaense se alinha perfeitamente ao segmento de queijos finos. “Não se trata de mera hipótese, é uma realidade. A produção está mais relacionada à qualidade do que ao volume. O grande desafio é a qualificação técnica e o posicionamento no mercado”, salienta.
Ela elenca três barreiras que precisam ser superadas: regularização, acesso a financiamento e estratégias de comercialização. “Atualmente, a regularização está mais simplificada do que no passado, mas ainda existem exigências sanitárias e custos com controle de qualidade. É necessário também investir em câmaras de maturação e em equipamentos adequados. Além disso, o produtor deve saber como vender, construir uma marca e desenvolver embalagens atrativas”, menciona.
Apesar destes desafios, os primeiros resultados observados são muito animadores. Segundo Karolline, já existem relatos de aumento de renda entre 20% e 200% em comparação com a produção de queijo fresco. “A única forma de garantir a viabilidade das pequenas propriedades é através da agroindustrialização”, conclui.
O suporte técnico abrange desde o manejo do rebanho até a regularização sanitária, além de acesso às capacitações oferecidas pelo Biopark. “Cada instituição se especializa em sua área, e quem realmente se beneficia com isso é o produtor”, resume.
A renda gerada com a venda de queijos finos, acrescenta Karolline, tem provocado um fenômeno inverso ao êxodo rural. “Temos notado o retorno de filhos que saíram para estudar, agora voltando para investir na agroindústria, especialmente em produtos que oferecem maior valor agregado”, afirma.
Com a combinação de tecnologia, capacitação e estratégias de mercado, o Paraná vê nos queijos finos uma importante ferramenta para desenvolvimento regional e permanência das famílias no campo. Para a assessora do IDR-PR, o diferencial vai além do preço final do produto.
“A renda proveniente do queijo pode ser um divisor de águas entre abandonar ou continuar na atividade. Quando o produtor se dá conta de que pode transformar seu leite em um produto valorizado e reconhecido no mercado, ele não está apenas vendendo queijos finos — está assegurando um futuro para sua propriedade e para a próxima geração.”
