Tecnologia Inovadora Transforma a Produção no Semiárido
A Embrapa Semiárido, localizada em Petrolina (PE), foi pioneira ao desenvolver uma tecnologia de manejo que possibilita a produção comercial de pera no semiárido do Nordeste. Essa inovação quebra a tradicional associação da cultura da pera a regiões de clima frio. A adaptação, realizada na região de Casa Nova, na Bahia, trouxe um diferencial notável: a possibilidade de realizar duas safras anuais na mesma planta, no Vale do São Francisco, onde a temperatura mínima raramente cai abaixo de 20 °C.
Tradicionalmente, as variedades de pera, como a Triunfo, necessitam de aproximadamente 450 horas anuais de frio com temperaturas iguais ou inferiores a 7,2 °C para completar seu ciclo produtivo. A solução encontrada pela Embrapa substitui essa necessidade por inibidores de crescimento, uma estratégia semelhante à utilizada na cultura da mangueira, como explica o pesquisador Paulo Roberto Lopes, responsável pelos estudos.
Após a colheita, é possível induzir uma nova floração em cerca de 30 dias e obter outra safra. “O que observamos é que geralmente temos uma safra maior e outra menor, mas ambas se destacam pela boa produtividade e qualidade”, afirma Lopes, ressaltando o avanço significativo que essa tecnologia representa para a fruticultura na região.
Brasil é Grande Importador de Pera
O mercado de peras no Brasil apresenta um potencial significativo. Atualmente, o país produz menos de 5% das peras que consome, dependendo da importação de aproximadamente 180 mil toneladas por ano. De acordo com Lopes, se houvesse uma oferta maior de frutas nacionais a preços acessíveis, o consumo poderia aumentar até 300 mil toneladas anuais. “Isso demonstra que há espaço para crescimento, principalmente através de uma organização coletiva, agregação de valor e acesso a mercados mais exigentes”, destaca o pesquisador.
A região de Casa Nova (BA) concentra as duas áreas comerciais dedicadas à cultura da pera na Bahia, resultado direto da pesquisa aplicada e da colaboração entre a Embrapa, a Axia Energia Nordeste e os produtores locais, no âmbito do Projeto Eólicas de Casa Nova. “Produzir pera no Vale do São Francisco era algo impensável. Hoje é uma realidade”, afirma Clébio da Silva Santos, técnico agrícola que acompanha o projeto desde 2017.
Ambiente Favorável e Pragas Sob Controle
Outro fator que favorece a expansão da cultura da pera no Semiárido é o aspecto fitossanitário. José Eudes Oliveira, pesquisador da Embrapa Semiárido, destaca que, ao contrário das regiões tradicionais de cultivo, a incidência de pragas na pereira tem sido baixa. “Historicamente, a cultura da pera enfrenta pragas severas no Sul do Brasil, como o pulgão-lanígero e a mosca-das-frutas. Entretanto, após mais de 16 anos de monitoramento, não observamos infestações que comprometam a produção”, relata.
Embora a incidência de pragas seja baixa, a atenção deve ser voltada às cochonilhas, que podem afetar a qualidade dos frutos, e à mosca-das-frutas, considerada um desafio potencial. A recomendação é o monitoramento constante, utilizando armadilhas e práticas de manejo preventivo, priorizando estratégias como iscas tóxicas e controle biológico, minimizando a necessidade de pulverizações.
Experiência do Produtor e Futuro Promissor
O produtor rural Gilvan Nogueira, envolvido no projeto, compartilhou suas impressões sobre a nova cultura. “Os resultados têm sido muito positivos, e pretendo ampliar a área de cultivo”, afirmou. Segundo ele, a condução dos galhos e as podas são fundamentais para a frutificação. “De maneira geral, é uma cultura relativamente simples de manejar. Com a orientação técnica correta e dedicação, a resposta no campo é excelente”, relata.
A Fase III do Projeto Eólicas de Casa Nova, financiado pela Axia Energia Nordeste em parceria com a prefeitura, planeja expandir as atividades no território, incluindo a perfuração de poços artesianos e a instalação de sistemas de irrigação. Além disso, o projeto busca fortalecer a fruticultura com culturas como melão e melancia e ampliar as práticas de apicultura.
A cultura da pera permanece como uma das apostas principais da iniciativa. “Essa ação tem o potencial de beneficiar os produtores rurais de Casa Nova e região, que recebem orientação técnica e insumos necessários para aplicar as inovações e melhorar a qualidade de vida no semiárido”, conclui o pesquisador Rebert Coelho.
