Safra Recorde em Meio a Desafios
A produção de café prevista para este ano é de 66,2 milhões de sacas beneficiadas, um recorde que supera em 3,2 milhões o maior volume já registrado em 2020. No entanto, mesmo com essa alta produção, os preços devem se manter elevados a curto prazo, segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Após uma sequência de duas safras consecutivas com oferta reduzida, os estoques globais de café se encontram em níveis baixos e demandam um esforço significativo para serem recuperados. Felippe Serigati, economista e pesquisador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro), ressalta que “os preços devem apresentar alguma acomodação, mas ainda assim permanecerão em patamares altos”.
Estoques Globais e Impactos da Clima
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) revela que o volume de grãos armazenados mundialmente caiu de 31,9 milhões para 20,1 milhões de sacas de 60 kg entre 2021 e 2022, uma diminuição de 36,9%. Essa queda está diretamente ligada à crise enfrentada pela cafeicultura nacional, que viu sua produção sofrer uma forte retração devido à estiagem.
Em 2024, a falta de chuvas durante o desenvolvimento das lavouras levou muitos produtores a aumentar os gastos com a manutenção das plantações e no combate a pragas, que tendem a proliferar com o aumento das temperaturas. Além disso, países importantes na produção de café, como Vietnã, Colômbia e Indonésia, também enfrentaram quebras de produção em decorrência de fenômenos climáticos, resultando em uma redução da oferta global do grão.
Desafios da Produção e Aumento da Demanda
O café é uma cultura sensível às variações climáticas e sua capacidade de produção não se recupera rapidamente. Novos plantios levam entre três a cinco anos para atingir a plena capacidade produtiva. Por outro lado, a demanda global por café continua crescendo, especialmente impulsionada pelo aumento do mercado asiático e pela popularização dos cafés especiais.
Serigati explica que o preço do café no Brasil está alinhado à cotação internacional, e fatores como câmbio, impostos e custos logísticos internos influenciam diretamente o valor final para o consumidor. “Uma única safra não é capaz de equilibrar a relação entre oferta e demanda”, afirma o pesquisador. “Seriam necessárias pelo menos duas safras boas consecutivas para restaurar esse equilíbrio e permitir que os preços retornem aos níveis anteriores, como os observados em 2023 e 2024.”
Alta de Preços e Impacto no Orçamento Familiar
De acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço do café moído acumulou uma alta de 99,48% entre janeiro de 2024 e junho de 2025, apresentando uma leve queda logo após esse período. Já o café solúvel teve um aumento de 36,56% em dois anos. Em contrapartida, a inflação geral no Brasil foi de 9,66% no mesmo intervalo.
O café, que ocupa a segunda posição entre as bebidas mais consumidas no Brasil, apenas atrás da água, já começa a pesar consideravelmente no orçamento das famílias. Desde janeiro de 2020 até janeiro deste ano, o valor do café no país subiu impressionantes 219,6%, mais do que o triplo em um período pouco superior a seis anos. Para efeito de comparação, a variação acumulada do IPCA nesse mesmo período foi de 39,7%, refletindo que o preço do café subiu 179,9% acima da inflação.
