Uma rede que escuta o oceano
Há 17 anos, uma rede formada por cientistas, pescadores, catadores de caranguejo e comunidades do litoral do Paraná vem construindo o retrato mais completo da biodiversidade marinha brasileira. Com patrocínio da Petrobras, o Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) se destaca por sua abordagem integrada, que alia o saber tradicional à pesquisa científica para entender e preservar um dos ecossistemas costeiros mais ricos do Atlântico Sul.
Conhecimento que nasce do encontro entre tradição e ciência
Na prática, essa colaboração é vista na rotina do senhor João, catador de caranguejos, que identifica tocas com uma precisão que só a experiência oferece. Ao seu lado, a professora Cassiana Metri, da Universidade Estadual do Paraná, coleta dados que transformam essa observação em informação científica rigorosa. Juntos, eles monitoram o caranguejo-uçá, espécie vital para a economia local e para o equilíbrio dos manguezais, mostrando que a união entre conhecimento popular e acadêmico é essencial para um diagnóstico confiável e duradouro.
O desafio da Grande Reserva Mata Atlântica
A Grande Reserva Mata Atlântica se estende do sul de São Paulo ao norte de Santa Catarina, conectando diversos ecossistemas que abrigam uma biodiversidade continental. Essa região enfrenta pressões intensas: portos movimentados, comunidades tradicionais, turismo e crescimento urbano. O Rebimar nasceu em 2009 para enfrentar exatamente essa complexidade, ampliando seu escopo para monitorar desde espécies emblemáticas até contaminantes invisíveis e a economia local, gerando dados que orientam políticas públicas e práticas sustentáveis.
Mapeamento e monitoramento dos manguezais
Com o avanço tecnológico, a oceanógrafa Sarah Charlier Sarubo ajudou a mapear com precisão cerca de 50 mil hectares de manguezais na Grande Reserva, superando estimativas anteriores. Além da extensão, o programa mede o vigor dessas florestas, sua biomassa e capacidade de armazenar carbono, criando uma linha de base inédita para detectar mudanças futuras. Os manguezais, além de berçários da vida marinha, são infraestruturas naturais que protegem a costa, filtram contaminantes e ajudam a mitigar eventos climáticos extremos.
Leia também: Paraná se destaca como líder na formação de talentos em tecnologia e IA em 2025
Fonte: triangulodeminas.com.br
Leia também: Shell e Qatar encerram exploração em Mar del Plata: O fim de uma promessa frustrada
Fonte: indigenalise-se.com.br
Tartarugas-verdes como sentinelas do ambiente
Na Ilha das Cobras, a professora Camila Domit e sua equipe monitoram tartarugas-verdes juvenis desde 2013. Através de marcação individual e tecnologia acústica, acompanhando seus deslocamentos, identificam áreas de alimentação e comportamento. Os dados obtidos revelam que cerca de 80% das tartarugas apresentam resíduos plásticos no trato digestório e metade sofre de fibropapilomatose, uma doença ligada a estresses ambientais. Esses animais funcionam como sentinelas biológicas, traduzindo em sinais vivos a qualidade do ambiente costeiro.
Microplásticos e poluição: um desafio invisível
A oceanógrafa Fernanda Possato coordena pesquisas sobre resíduos e poluição marinha, destacando a presença de microplásticos em 90% dos peixes comerciais analisados na região, além de aves, tartarugas e mamíferos marinhos. Embora os impactos diretos à saúde humana ainda sejam estudados, essa contaminação mostra que a poluição plástica é difusa e resistente, circulando por toda a cadeia ecológica e ultrapassando limites geográficos, o que exige ações coordenadas e de longo prazo para sua contenção.
Cooperação inovadora para conservação da raia-viola
Um dos exemplos mais emblemáticos da integração entre ciência e comunidade é o protocolo para recuperação da raia-viola, espécie ameaçada que sofre captura incidental na pesca artesanal. Quando uma raia é capturada, pescadores acionam o Rebimar, que realiza cuidados veterinários e devolve o animal ao mar. Mais de cinco mil raias já foram salvas graças a essa parceria, que transforma um conflito em uma cooperação produtiva, mostrando que a conservação pode e deve conviver com o uso sustentável dos recursos.
Saúde Única: integrando ambiente, animais e pessoas
O conceito que unifica todas essas ações é o da Saúde Única, que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. André Catani, diretor da Associação Mar Brasil, reforça que doenças, contaminações e impactos ambientais são fenômenos conectados, que só podem ser compreendidos e enfrentados com colaboração interdisciplinar. Essa abordagem é fundamental para a gestão integrada dos sistemas costeiros e para a formulação de políticas públicas eficazes.
Educação ambiental e continuidade dos projetos
Além do monitoramento, o Rebimar investe em educação ambiental, com o programa Escolas Azuis que incorpora o conhecimento oceânico no currículo escolar de Pontal do Paraná. Essa iniciativa forma novas gerações conscientes da importância do mar para suas vidas. Michele Cardoso, da Petrobras, destaca que o apoio contínuo da empresa tem sido vital para a manutenção e expansão do programa, que reúne diversas instituições e fortalece uma infraestrutura de governança ambiental rara no Brasil.
Dados históricos que fazem a diferença
Ao longo de quase duas décadas, o Rebimar construiu séries históricas valiosas que permitem distinguir tendências ambientais de variações naturais, transformando uma fotografia em um filme que revela processos complexos. Esses dados fornecem a base para decisões mais informadas por parte de gestores públicos, pescadores, operadores portuários e educadores, contribuindo para o equilíbrio entre desenvolvimento econômico e conservação ambiental no litoral do Paraná.
O litoral do Paraná que resiste e se renova
O litoral do Paraná não é um ambiente intocado, mas um território vivo, onde comunidades, pesca, turismo e indústria coexistem. O desafio é garantir que esse espaço continue funcionando ecologicamente e socialmente diante das pressões crescentes. O Rebimar oferece o conhecimento necessário para apoiar essa equação, sem certezas absolutas, mas com dados consistentes e parcerias que unem ciência, tradição e gestão pública. É uma prova de que o futuro da conservação pode começar com alguém ajoelhado no barro, atento aos sinais que o oceano nos envia.
