Conflitos no Oriente Médio e suas Consequências
A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã tem provocado uma onda de incertezas que reverbera por setores vitais para a produção de alimentos globalmente. Com o preço do barril de petróleo se aproximando dos 100 dólares, a nova preocupação recai sobre a escassez de fertilizantes, amplamente produzidos por países da região do Golfo Pérsico. O Estreito de Ormuz, crucial para o transporte desses insumos, encontra-se bloqueado, o que agrava a situação.
O impacto é especialmente significativo sobre os fertilizantes nitrogenados, com destaque para a ureia, que é amplamente utilizada pelos agricultores em todo o mundo. De acordo com a Bloomberg Intelligence, estima-se que cerca de 50% do volume de ureia comercializado globalmente tenha sua origem nesses países. O Brasil, um dos líderes na produção agrícola, depende enormemente desse insumo, importando aproximadamente 85% dos fertilizantes que utiliza anualmente, conforme dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), reportados pela Reuters.
Aumentos de Preços e suas Implicações
Em 2025, todo o estoque de ureia do Brasil foi importado, e cerca de 41% dessas importações passaram pelo Estreito de Ormuz, conforme informações da consultoria Agrinvest. Recentemente, o preço da ureia no Egito, um mercado referência, subiu 37%, saltando de 485 dólares para 665 dólares por tonelada. Embora ainda esteja abaixo do pico de mil dólares registrado após a invasão da Ucrânia pela Rússia, essa elevação já gera preocupações para as próximas semanas, especialmente entre os mercados do Hemisfério Norte, que estão iniciando o ciclo de plantio.
A dependência da ureia é particularmente alta em cultivos como milho, trigo e arroz. Joseph Glauber, pesquisador sênior do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares (IFPRI), adverte que o aumento nos preços dos fertilizantes pode levar os agricultores a optarem por culturas que demandam menos insumos, o que poderia comprometer a produção agrícola.
Impacto da Crise Energética na Produção de Fertilizantes
Outro fator complicador é a questão do gás natural liquefeito (GLN), vital na produção de fertilizantes nitrogenados. Assim como o petróleo, cerca de 20% do GLN exportado mundialmente passa pelo Estreito de Ormuz. Recentemente, a Qatar Energy suspendeu sua produção devido a ataques iranianos em Ras Laffan, um dos maiores centros globais de GLN e fertilizantes. Essa complexidade já impacta o mercado, e os preços internacionais de ureia refletem essas tensões.
O banco holandês ING alertou sobre a possibilidade de um bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz, que poderia reduzir drasticamente a disponibilidade de fertilizantes em regiões fortemente dependentes de importações, incluindo Brasil, Índia, Sul da Ásia e partes da União Europeia.
Previsões para o Agronegócio Brasileiro
Ainda que os efeitos dessa crise estejam mais evidentes nos países do Hemisfério Norte, no Brasil a situação permanece incerta. Tomás Pernías, analista da consultoria StoneX, especializada em commodities, destaca que o nível de incerteza é elevado e não há garantias de que os preços de fertilizantes se estabilizarão nas próximas semanas. Ele ressalta que, à medida que o cenário geopolítico se torna mais imprevisível, a previsão de comportamento do mercado de fertilizantes se torna cada vez mais desafiadora.
Pelo menos por enquanto, os agricultores brasileiros podem estar em uma posição relativamente mais favorável do que seus pares do Hemisfério Norte, de acordo com Mauro Osaki, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). Ele observa que, devido a um planejamento mais antecipado, muitos produtores já adquiriram seus fertilizantes para a safra de milho.
Desafios Futuros e Alternativas
Osaki também aponta que os maiores impactos futuros podem recair sobre o plantio de trigo e cevada, que já enfrentam rentabilidade negativa. Além disso, a dificuldade em obter fertilizantes nitrogenados pode afetar o cultivo de arroz e feijão, que, segundo o pesquisador, já observam queda de demanda devido a mudanças no perfil de consumo dos brasileiros.
“Ainda vivemos uma incerteza quanto ao impacto desse conflito nos preços e, consequentemente, na elevação dos custos de produção”, adverte Osaki. Ele destaca que, no curto prazo, o efeito mais visível deve se manifestar em lavouras de inverno, como trigo, aveia e a safrinha de milho.
Implicações para Outros Setores do Agronegócio
Enquanto isso, o setor de proteína animal também enfrenta desafios. Quase 25% das exportações de carne de frango brasileiras em 2025 foram destinadas ao Oriente Médio, e o fechamento do Estreito de Ormuz pode suspender novos embarques para a região. Os produtores estão considerando redirecionar suas vendas para outros mercados, mas essa alternativa apresenta desafios logísticos e legais.
“Se as exportações de carne de frango forem severamente afetadas, a produção voltada para o mercado externo pode ser redirecionada para o mercado interno, mas isso exigiria adaptações significativas”, conclui o Cepea, ressaltando que o atual cenário demanda cautela e estratégia no planejamento agrícola.
