Um cenário delicado para o agronegócio
A guerra no Irã está provocando efeitos significativos no setor agrícola brasileiro, levando muitos produtores a suspender investimentos e adiar compras de equipamentos. O produtor Edimilson Roberto Rickli, de Prudentópolis, no Paraná, foi um dos afetados. Ele interrompeu a negociação de um trator avaliado em R$ 2 milhões, em função do aumento nos preços do diesel e de insumos, como fertilizantes. Para Rickli, a elevação de custos já compromete a rentabilidade do agronegócio, e a incerteza sobre o desfecho do conflito inviabiliza novos investimentos.
Desde que o Irã fechou o Estreito de Ormuz, em decorrência de ataques dos Estados Unidos e Israel, o preço do óleo diesel e outros insumos disparou. Este estreito é responsável pelo transporte de 20% do petróleo mundial, e, embora o Brasil exporte petróleo bruto, ainda é dependente das importações de diesel, além dos fertilizantes da região, especialmente a ureia.
Outro fator que pesa na decisão de investimentos é a taxa de juros, que se mantém elevada em torno de 13% ao ano. Rickli calculou que só com os juros do primeiro ano pagaria R$ 266,5 mil. Em função do conflito, ele decidiu não arrendar uma fazenda de 250 hectares para expandir suas lavouras. Engenheiro agrônomo e presidente do Sindicato Rural de Prudentópolis, Rickli observa que outros produtores também estão adiando projetos devido à instabilidade.
A reação dos economistas
José Roberto Mendonça de Barros, economista e colunista do Estadão, observa que essa “paralisação” é uma resposta natural dos produtores rurais diante do aumento instantâneo e acentuado dos custos. Segundo ele, mesmo que ocorra um cessar-fogo, o restabelecimento dos fluxos comerciais levará, no mínimo, 90 dias. O impacto nos campos de gás e petróleo, que tiveram suas produções interrompidas, exige tempo para serem retomadas.
No melhor cenário, Mendonça de Barros acredita que a oferta de diesel e fertilizantes permanecerá prejudicada, afetando ainda mais a já apertada situação financeira do setor agropecuário. A possibilidade de uma inflação crescente, somada à postura do Banco Central em não reduzir a taxa de juros como esperado, contribui para um cenário desafiador, aumentando a pressão sobre os produtores.
Subida nos custos de operação
Em Prudentópolis, o aumento no preço do diesel desde o início da guerra foi de R$ 2,50 por litro, passando de R$ 5,49 para R$ 7,99. Com uma colheitadeira consumindo entre 300 a 400 litros por dia, o custo diário para operação pode ultrapassar R$ 3 mil. A família Rickli, de origem suíça, possui extensas áreas de cultivo em dez municípios, com uma frota que inclui tratores, caminhões e colhedoras, todos movidos a diesel.
Augustinho Andreatto, outro produtor da região, também interrompeu um investimento de R$ 1 milhão em pecuária leiteira. “Todos os nossos investimentos estão paralisados por conta da insegurança que chegou ao campo”, afirma Andreatto. Sua fazenda, que já foi um importante polo de erva-mate, agora se dedica a vacas holandesas, suínos, ovelhas e a produção de soja e milho.
Desafios no comércio internacional
Além dos desafios domésticos, os produtores de soja estão enfrentando novas barreiras comerciais. A China, maior compradora da soja brasileira, impôs restrições sanitárias que resultaram na devolução de cargas devido à presença de sementes de plantas invasoras. Somente na primeira quinzena de março, 2,5 mil caminhões foram devolvidos pelo Porto de Paranaguá, o maior do Paraná. Isso representa um ônus adicional para o produtor, que deve arcar com custos de frete e reclassificação da soja antes do embarque.
O governo brasileiro, em resposta às exigências da China, flexibilizou algumas regras, permitindo que a inspeção seja realizada por empresas especializadas em vez de apenas fiscais governamentais. Contudo, a exigência de soja livre de pragas continua rigorosa, o que impacta diretamente na logística e nos custos.
O futuro do agronegócio brasileiro
Com o agronegócio respondendo por uma parte significativa do PIB de Prudentópolis, a incerteza em relação ao futuro do setor é alarmante. O presidente da Federação da Agricultura do Paraná, Ágide Meneguette, alerta que os efeitos da guerra e das altas nos custos já são sentidos e que os produtores estão reavaliando seus planos. O cenário atual pede cautela e planejamento, uma vez que o cenário internacional e a economia local estão interligados e afetam diretamente a produção agrícola.
Com o aumento da taxa de juros e a necessidade de adaptação às novas regras comerciais, a incerteza predomina, e os agricultores se veem pressionados a fazer escolhas difíceis sobre seus investimentos e estratégias futuras, enquanto esperam que uma resolução para o conflito no Oriente Médio ocorra e que as condições de mercado se estabilizem.
