Esquema de Fraude em Postos de Combustíveis
A Polícia Federal (PF) indiciou oito indivíduos por fraudes e adulteração em postos de combustíveis localizados em Curitiba e na Região Metropolitana. A identidade dos indiciados não foi divulgada pela corporação. As investigações, que abrangeram 50 postos de combustíveis, revelaram que as fraudes ocorriam de duas maneiras principais: fornecendo volumes inferiores ao que constava na bomba e aumentando a quantidade de etanol adicionada à gasolina.
De acordo com informações da PF, os indiciados foram acusados de estelionato, caracterizado pelo uso de artifícios para induzir o consumidor ao erro, e também por crimes contra a ordem econômica, que envolvem a aquisição e revenda de combustíveis em desacordo com a legislação vigente. Os envolvidos foram identificados como parte da liderança e gestão de uma rede de postos fraudulentos, sendo que, somadas, as penas que podem ser aplicadas chegam a 40 anos de reclusão para cada um deles.
Resultados das Investigações
Em nota, o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis (Paranapetro) enfatizou que a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis é um problema sério no Brasil e que investigações como essa são cruciais para o combate à ilegalidade na área.
A coleta de amostras ocorreu entre 26 de maio e 6 de junho de 2025. Segundo o laudo de perícia acessado pela RPC, apenas seis dos 50 postos analisados estavam fornecendo a quantidade de combustível correta conforme indicado na nota fiscal. Nos demais 44 casos, os postos disponibilizaram volumes abaixo do que foi pago pelos consumidores, com variações que oscilaram entre 1% e 8,1% a menos do que o total registrado.
O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) estipula que a variação aceitável entre o volume real e o volume declarado deve ser de até 0,5% para mais ou para menos. Além disso, a análise também avaliou o teor de etanol, a aparência e a massa específica dos combustíveis, constatando que 28 das 50 amostras estavam abaixo do padrão de qualidade exigido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Qualidade dos Combustíveis Comprometida
Durante a análise, uma das amostras foi reprovada por não apresentar um aspecto límpido e homogêneo, isento de impurezas. Em relação ao teor de etanol na gasolina, 28 amostras apresentaram porcentagens superiores ao permitido. As amostras reprovadas continham entre 35% e 79% de álcool, enquanto a quantidade máxima permitida de etanol era de 27%, com uma margem de variação de até 2% para mais ou para menos. Essa prática, além de ser considerada criminosa, pode causar danos diretos aos veículos dos consumidores e aumentar os lucros ilícitos dos envolvidos.
Conexões com o Crime Organizado
A investigação revelou que os postos de combustíveis eram utilizados como parte de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro do crime organizado. Os lucros provenientes das fraudes eram reinvestidos em uma estrutura financeira que movimentou bilhões, usando empresas de fachada e indivíduos como “laranjas” para ocultar a origem ilegal dos fundos.
As investigações começaram em 2023, quando um homem condenado por tráfico internacional e sua esposa passaram a exibir bens de luxo em um condomínio de alto padrão em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. O casal possuía mais de R$ 34 milhões em bens sem comprovação de origem lícita, incluindo imóveis e veículos luxuosos.
Durante as apurações, a PF identificou a associação do casal a integrantes de uma empresa de produtos químicos e uma distribuidora de petróleo, que operava em Pinhais e Paulínia, em São Paulo. Com uma empresa dedicada ao comércio de produtos químicos, adquiriram insumos utilizados nas misturas ilegais de combustíveis. Entre 2020 e 2023, a distribuidora de petróleo criada pelo casal declarou um faturamento superior a R$ 7 bilhões, presumivelmente obtidos de forma ilícita.
Estratégia de Lavagem de Dinheiro
A PF detalhou que a lavagem de dinheiro ocorria em três etapas: colocação, dissimulação e integração. Na colocação, o dinheiro ilícito entrava na economia formal por meio de depósitos, fracionados muitas vezes em pequenas transações, além de transferências por empresas de fachada registradas em nomes de laranjas. Na dissimulação, os valores circulavam entre diferentes empresas do grupo, simulando operações e fraudes fiscais. Finalmente, na etapa de integração, os recursos retornavam ao mercado como se fossem legais, através de contabilidade fraudulenta.
Ao todo, foram identificados R$ 594 milhões em depósitos sem origem legal comprovada, além de movimentações disfarçadas como “adiantamentos de clientes”. A investigação também revelou que mais de 120 empresas suspeitas transferiram aproximadamente R$ 1,4 bilhão sem justificativa.
