Impactos da Tensão no Oriente Médio
A tensão crescente no Oriente Médio, especialmente entre EUA, Israel e Irã, trouxe consequências diretas ao mercado do petróleo, com o preço do barril registrando um aumento de até 13%, alcançando a marca de US$ 82. No entanto, essa valorização não se sustentou por muito tempo, refletindo uma instabilidade amplia no cenário global.
Por trás dessa crise geopolítica, estão questões estruturais que afetam diretamente a educação e a inovação nos Estados Unidos. O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, aponta um retrocesso significativo na qualidade educacional do país, que é evidenciado pelos resultados do exame Pisa, onde a nota dos estudantes americanos em matemática caiu de 483 para 465 desde 2003, colocando os EUA abaixo da média da OCDE e 60 pontos atrás da Coreia do Sul.
A Queda da Inovação e o Investimento em Pesquisa
Outro dado alarmante é que o número de patentes registradas pela China superou o dos Estados Unidos em 2011 e, para 2024, espera-se que esse número seja três vezes maior. Vale destaca que o investimento em pesquisa e desenvolvimento, que já foi predominantemente estatal, caiu de 67% para apenas 18% atualmente. Essa mudança é um indicativo claro de um afastamento do compromisso histórico dos EUA com a inovação.
Além disso, a infraestrutura do país está em um estado preocupante, especialmente no Sul, onde muitos estados enfrentam realidades precárias, conforme aponta um relatório da Consultoria Eurasia Group divulgado recentemente.
Desafios no Setor Energético e a Formação de Talentos
A geração de energia também vem enfrentando desafios. A infraestrutura elétrica americana é sobrecarregada, enquanto a China avança rapidamente na produção de energia renovável, assumindo a liderança global nesse aspecto. De acordo com as estimativas, a geração elétrica nos EUA permaneceu estagnada em torno de 4 mil terawatts/hora desde 2000, enquanto a China saltou de menos de 2 mil para mais de 10 mil terawatts/hora.
Essa situação é preocupante, pois enquanto os EUA veem um retrocesso, a China continua a ampliar seu investimento em educação, formando um número considerável de engenheiros e especialistas nas áreas de ciência, tecnologia e engenharia, superando a formação dos EUA em quatro vezes.
Consequências da Intervenção Estatal e a Competitividade
As intervenções do governo Trump também têm contribuído para uma diminuição da competitividade da economia americana. Recentemente, o governo impôs restrições à startup de inteligência artificial, Anthropic, e tornou-se acionista majoritário em grandes empresas, o que, segundo Vale, está “solapando os pilares da inovação”.
Vale ainda alerta que essa política de protecionismo pode afetar negativamente a capacidade dos EUA em pesquisa e desenvolvimento no médio prazo. Os primeiros sinais de desaceleração econômica já são visíveis, com o Produto Interno Bruto (PIB) crescendo 2,2% em 2025, uma queda em relação ao crescimento anterior de 2,8% em 2024.
A Visão de Especialistas sobre a Hegemonia Americana
Embora alguns especialistas, como Carlos Primo Braga da Fundação Dom Cabral, reconheçam que os EUA ainda se mantêm como líderes em inovação e possuem a estrutura militar mais poderosa do mundo, ele também enfatiza que as decisões de Trump podem comprometer essa liderança. A erosão da competitividade, especialmente com o crescimento das publicações científicas e patentes chinesas, indica que a diferença tecnológica está diminuindo rapidamente.
Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), discorda da ideia de uma perda de hegemonia total. Ele ressalta que, pelo menos desde 2000, os EUA continuam entre os principais países em inovação, mantendo-se em terceiro lugar no Índice Global de Inovação da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI).
O Futuro do Dólar e das Instituições Democráticas
Além disso, a política de Trump tem gerado efeitos colaterais que afetam a posição do dólar como reserva de valor. O dólar, que antes representava 70% da “poupança” global na década de 1970, agora está abaixo de 60%, refletindo uma perda de influência no mercado internacional. Para Ricupero, Trump representa uma ameaça significativa às instituições democráticas americanas, e as eleições legislativas de novembro serão cruciais para determinar o futuro do autoritarismo em seu governo.
