Explorando a Adolescência e a Rebeldia
O cineasta Laurent Cantet, conhecido por sua obra “Entre os Muros da Escola”, de 2008, enfrentou a dura batalha contra um câncer agressivo ao decidir embarcar em seu último projeto, “Enzo”. Apesar de sua saúde debilitada, Cantet confiou seu legado a Robin Campillo, diretor de “120 Batimentos por Minuto”, que assumiu as rédeas do filme após o falecimento de Cantet em abril de 2024. A narrativa gira em torno de Enzo, um jovem de 16 anos que vive em uma casa luxuosa no Sul da França, mas sente uma desconexão entre seu estilo de vida e suas expectativas pessoais.
Essa inadequação gera um conflito interno em Enzo. Em vez de seguir o caminho tradicional de seus colegas, que se preparam para carreiras promissoras, ele toma uma decisão audaciosa: abandonar a escola e se tornar pedreiro em um canteiro de obras. Essa escolha inesperada é, no início, uma preocupação para seus pais, que acreditam que se trata apenas de uma fase passageira.
Conexões e Conflitos
A rebeldia de Enzo ecoa a de outros jovens do cinema, como o personagem de Jack Nicholson em “Cada Um Vive Como Quer”, de 1970, que trocou uma vida confortável por um trabalho braçal. Contudo, a jornada de Enzo ocorre em um contexto menos radical, refletindo uma luta interna ainda não totalmente compreendida. Ele rejeita o padrão de uma vida de classe média, sentindo que não se encaixa nesse modelo.
Durante sua experiência no canteiro, Enzo é desajeitado, agindo com indiferença. Porém, a amizade com o imigrante ucraniano Vlad transforma essa realidade. A relação desperta não apenas a percepção de sua sexualidade, mas também uma consciência sociopolítica em Enzo. A guerra na Ucrânia, que afeta diretamente Vlad, instiga um interesse profundo em Enzo, levando-o a refletir sobre a condição humana e os desdobramentos geopolíticos atuais.
A Sexualidade e as Condições Sociais
O filme destaca a complexidade das relações masculinas e aborda a sexualidade de forma audaciosa, assim como as dificuldades enfrentadas no ambiente de trabalho e na guerra. “Enzo” se afasta das convenções políticas atuais, oferecendo uma visão mais crua e naturalista da adolescência. A sexualidade de Enzo, interligada às suas experiências, é explorada de maneira sutil, evidenciando a liberdade de expressão dos desejos humanos.
Enquanto a narrativa se desenrola, a vida de Enzo se revela como um retrato das incertezas da adolescência, indo além da mera descoberta do amor. Campillo não evita a inclusão de elementos romantizantes, mas a aridez da realidade prevalece, resultando em uma obra que combina ternura e aspereza. A interpretação de Eloy Pohu, como Enzo, traz um laconismo que reflete a inexperiência do personagem, criando uma conexão genuína com a essência do papel.
Um Protagonista Complexo
O filme é minucioso na construção de Enzo, que se mostra um protagonista complexo e multifacetado, capaz de influenciar os que o cercam, incluindo seu pai, que se depara com uma culpa burguesa inesperada. Campillo, ao assumir o projeto, faz isso com um respeito pela visão de Cantet, mas também com a intenção de infundir sua própria perspectiva à obra.
Com unidade e coerência, “Enzo” se destaca como uma expressão significativa da paixão de Campillo pelo cinema. O filme vai além de uma simples narrativa sobre adolescentes, tornando-se uma reflexão sobre as escolhas, as pressões sociais e as aspirações de uma geração em busca de seu lugar no mundo.
