Uma Reflexão Sobre a Condição Humana
No aclamado romance “Ensaio sobre a Cegueira”, escrito por José Saramago, uma estranha epidemia de “cegueira branca” se alastra por uma grande cidade, provocando um colapso social. Publicado originalmente em 1995, o livro inicia com um homem, no meio do trânsito, que, de repente, perde a visão. O fenômeno rapidamente se espalha, desafiando a moral e a ética da sociedade.
Trinta anos depois, o Grupo Galpão adapta esta poderosa narrativa para os palcos com “(Um) Ensaio Sobre a Cegueira”, uma montagem que tem sido aclamada pela crítica como verdadeira obra-prima. O espetáculo está programado para a Mostra Lucia Camargo na 34ª edição do Festival de Curitiba, com apresentações nos dias 31 de março e 1º de abril, sempre às 20h30, no Guairinha.
Uma Montagem que Dialoga com o Presente
Dirigido por Rodrigo Portella, o espetáculo busca estabelecer um diálogo entre o clássico de Saramago e as questões contemporâneas, onde as distopias parecem estar cada vez mais incorporadas ao nosso cotidiano. O ator Eduardo Moreira aponta que a peça provoca reflexões sobre os “limites tênues entre civilização e barbárie”. Para ele, a relevância do romance cresceu com o tempo, especialmente em um mundo onde autocracias e ameaças à democracia se tornam cada vez mais evidentes.
“A verdade é que, ao longo do tempo, o romance de Saramago se fez ainda mais atual. A maneira como a obra aborda aspectos que se intensificam no cenário contemporâneo é por demais pertinente”, comenta Moreira. Durante o processo de adaptação, o Grupo Galpão realizou algumas modificações, como a mudança do primeiro cego para um evangélico e a transformação da esposa do médico em uma mulher que consegue enxergar.
Adaptações para uma Nova Visão
Essas adaptações foram cuidadosamente pensadas para aproximar a obra do contexto atual, intensificando a sensação de ameaça da distopia que a narrativa propõe. Os personagens, confinados em um manicômio, enfrentam condições precárias de higiene e sobrevivência, o que acentua a fragilidade da civilização. “O que se revela é a luta interna entre a civilização e o instinto primitivo que cada um de nós carrega”, explica Moreira.
Uma Experiência Transformadora
O Grupo Galpão, com ênfase em teatro de qualidade, foi fundado em 1982 em Belo Horizonte e tem um histórico de colaborações com grandes diretores, como Paulo José e Gabriel Vilella. Para Moreira, o trabalho ao lado de Portella foi especialmente revelador. “Ele é um diretor com uma visão aguçada e um dramaturgo talentoso. Sua capacidade de articular as palavras e expressar as ideias de Saramago é impressionante”, ressalta.
Outro ponto alto da montagem é a direção musical de Federico Puppi. Com o apoio do músico, o grupo criou dez músicas originais que integram a narrativa do espetáculo de forma harmoniosa. “Foi um trabalho revelador, que nos permitiu explorar a profunda relação entre música e teatro”, conta o ator.
Um Festival de Cultura e Reflexão
A Mostra Lucia Camargo, parte do Festival de Curitiba, conta com o apoio de várias instituições, incluindo Petrobras e o Governo do Estado do Paraná. Este evento cultural não apenas exalta o teatro, mas também provoca reflexões sobre a sociedade contemporânea, através de obras que são sempre relevantes.
Serviço:
“(Um) Ensaio Sobre a Cegueira”
Datas: 31 de março e 1º de abril de 2026 (terça e quarta), às 20h30
Local: Auditório Salvador de Ferrante (Guairinha) | Rua XV de Novembro, 971 – Centro, Curitiba/PR
Classificação: 16 anos
Duração: 140 min
Ingressos: Esgotados
