A Ópera e a Política: Uma Reflexão Necessária
Recentemente, estive na apresentação da ópera “Um Baile de Máscaras” na Bastille e não pude deixar de traçar paralelos com a realidade política do Brasil. A obra de Verdi aborda temas como destino, traição, perdão e sacrifício, encerrando com uma mensagem humanista: a honra e o perdão podem prevalecer mesmo diante da morte. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi a situação conturbada do Supremo Tribunal Federal (STF), que um dos ministros descreveu como permeada por “insegurança”. Uma reunião que deveria ser secreta, onde se decidiu a relatoria do caso Master, teve seu conteúdo gravado, possivelmente pelo próprio ministro, gerando surpresa e preocupação entre seus defensores. Que outras conversas poderão ter sido registradas?
Logo depois, o ministro Alexandre de Moraes, utilizando os poderes que lhe foram conferidos pela inação de seus colegas, determinou a quebra do sigilo bancário de cerca de cem pessoas ligadas por laços de parentesco até o terceiro grau com outros ministros. Essa medida, aparentemente tomada sem a devida consulta, visa investigar se dados da Receita Federal foram acessados em relação à sua esposa, que possui um contrato milionário com o Banco Master, e ao próprio ministro Toffoli. Contudo, alguns de seus pares expressam receio de que Moraes possua informações excessivas acerca deles e de suas famílias. O clima, portanto, é de insegurança e traição, e a obra de Verdi, “Um Baile de Máscaras”, se revela, de forma surpreendente, um eco da política brasileira contemporânea.
Conexões Entre a Ópera e a Cena Política Atual
Apesar de estar ambientada em um período diferente, a ópera levanta questões sobre poder, desconfiança e conspirações que se entrelaçam com as tensões do Brasil atual. No cerne da trama está um líder carismático que, mesmo cercado de aparentes lealdades, vive sob a constante sombra da traição. Esse contexto faz eco à realidade política brasileira, especialmente com as articulações para as eleições deste ano, que incluem a presidencial, repleta de alianças frágeis, disputas internas e crises de confiança frequentes entre líderes e seus aliados.
O enredo de traições e inseguranças é um reflexo direto da dinâmica dos Bolsonaro, onde, por um lado, o pai não confia em seus aliados, depositando confiança apenas em sua família, que, por sua vez, enfrenta desavenças nos bastidores. A postura do ex-deputado Eduardo em defesa das taxações de Trump no Brasil originou acalorados debates que vieram à tona. Além disso, a discórdia entre a madrasta Michelle e os enteados, alimentada por ambições políticas, traz um toque trágico à narrativa. O caso do Banco Master é um exemplo desse ambiente ambíguo também no petismo, onde Toffoli, uma criação de Lula e do PT, já havia rompido lealdades ao proibi-lo de comparecer ao enterro de seu irmão durante sua prisão.
Ambiente de Rivalidades e Desconfiança
Como presidente do STF, Toffoli convocou um general do Exército para ajudá-lo e se referiu ao golpe de 1964 como um “movimento”. No caso Master, ele colocou o governo em uma posição delicada ao expor sua proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Assim como o duque Ricardo na peça, os protagonistas governam em um cenário onde amizades políticas podem rapidamente se converter em rivalidades. O baile final da ópera, com a queda das máscaras, simboliza a dificuldade de discernir intenções verdadeiras.
A metáfora do baile sugere um cenário em que a imagem pública não necessariamente reflete as verdadeiras articulações de poder. A obra de Verdi também destaca o peso do destino e da inevitabilidade. A profecia que prefigura a morte de Ricardo gera uma atmosfera de fatalismo, reminiscentes de certos momentos da política brasileira, onde crises parecem caminhar para desfechos previsíveis, apesar das tentativas de evitá-los. Um exemplo disso é o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que culminou em sua desclassificação e em acusações de abuso de poder econômico e político que serão analisadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Um Baile de Máscaras: Reflexões que Persistem
A opéra “Um Baile de Máscaras” permanece relevante, revelando que, mesmo através das transformações históricas, a política continua a ser um palco de ambições, lealdades frágeis, encenações públicas e decisões humanas sob pressão — um verdadeiro baile onde nem todos se mostram plenamente. As lições de Verdi são, portanto, atemporais, refletindo um Brasil que, por detrás das aparências, enfrenta dilemas e desafios semelhantes.
