A Pressão do Turismo de Massa nas Praias Brasileiras
Nos últimos anos, o turismo de massa nas praias brasileiras tem levantado um alerta sobre os riscos à infraestrutura e ao meio ambiente. Após episódios de desordem em Porto de Galinhas, a prefeitura de Ipojuca, em Pernambuco, decidiu proibir a exigência de consumação mínima em barracas de praia. Outras localidades, como Niterói (RJ), estabeleceram limites de preço para aluguel de barracas, enquanto em cidades como Florianópolis (SC), Arraial do Cabo (RJ) e Ubatuba (SP), a fiscalização foi intensificada.
Além das novas regras comerciais, a necessidade de controle no número de visitantes em áreas de proteção ambiental se faz urgente. Destinos como Jericoacoara (CE), Ilha Grande (RJ) e Morro de São Paulo (BA) enfrentam ações judiciais em resposta à implementação de taxas de visitação. Já nos Lençóis Maranhenses (MA), que recentemente foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural Mundial, os gestores estão considerando estabelecer um limite diário de visitantes para preservar a região.
Exemplos Internacionais de Controle de Acesso
Em diversos países ao redor do mundo, a limitação de visitantes tem sido uma prática adotada para proteger os destinos turísticos. O Monte Fuji, no Japão, e Machu Picchu, no Peru, reduziram seu horário de funcionamento e o número de visitantes diários. Veneza, na Itália, e Mallorca, na Espanha, impuseram restrições e taxas para controlar o fluxo de turistas.
O Brasil, que em 2023 recebeu 9.287.196 turistas internacionais, superando recordes anteriores e aumentando em 37% em relação a 2024, precisa urgentemente considerar estas práticas. Os turistas argentinos lideraram o ranking, seguidos por chilenos, norte-americanos e outros países da América do Sul.
O Papel do Ministério do Turismo e a Necessidade de Planejamento Integrado
Com o aumento do fluxo turístico, a secretária-executiva do Ministério do Turismo, Ana Carla Lopes, enfatiza a importância de uma “política integrada” que envolva setores público e privado, além da sociedade civil. A discussão em torno da criação de taxas de visitação e outros mecanismos de controle é fundamental para destinos que enfrentam desafios relativos ao crescimento exacerbado.
Ela afirma que a experiência de cada local deve ser respeitada na implementação dessas medidas. A situação em Porto de Galinhas, marcada por desordem e indiciamento de 14 pessoas pela Polícia Civil, é um exemplo claro da necessidade de ações efetivas. Em 2025, o destino recebeu 1,2 milhão de visitantes, um aumento significativo em relação ao passado.
Crescimento Sem Planejamento: O Caso de Porto de Galinhas
O crescimento do turismo em Ipojuca não é um fenômeno recente. Desde 2005, o laboratório de arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) alertava sobre a expansão desordenada da cidade, que hoje abriga 106 mil habitantes, quase o dobro da população da época. O urbanista Zeca Brandão, que coordenou o estudo, ressalta a falta de planejamento na infraestrutura e o impacto disso na qualidade de vida da população local.
A transformação de Porto de Galinhas, uma vila de pescadores que conquistou a classe média nos anos 1970, exemplifica como a falta de planejamento pode levar à degradação de um ambiente turístico. Brandão observa que, embora o turismo tenha trazido desenvolvimento econômico, a infraestrutura básica, como saneamento e segurança, ainda é deficiente.
A Realidade de Santo Amaro e os Lençóis Maranhenses
Em Santo Amaro, uma das cidades dos Lençóis Maranhenses, o italiano Matteo Soussinr, que abriu uma pousada sustentável na região, testemunhou um crescimento acentuado. O município, que contava com 20 mil moradores, teve suas visitas aumentadas de 61 mil, em 2021, para 297 mil no último ano. Como resultado, o ICMBio e as autoridades locais estão considerando limitar o número de visitantes diários no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.
Soussinr destaca a evolução econômica que o turismo trouxe, mas também alerta sobre os riscos de contaminação do lençol freático. A cobrança de uma taxa de R$ 10 para estadias de três dias é uma das medidas tomadas para tentar equilibrar o crescimento turístico e a preservação ambiental.
A Necessidade de Políticas Públicas Eficientes
A pesquisadora em turismo da USP, Mariana Aldrigui, critica a falta de políticas públicas efetivas para o setor no Brasil. Segundo ela, as ações têm sido reativas, sendo mais voltadas à promoção de destinos do que ao planejamento e ordenamento dos mesmos. A massificação do turismo, conforme Aldrigui, não ocorre de uma hora para outra, mas é um processo progressivo que demanda atenção e ações proativas.
Em 2024, os Parques Nacionais do Brasil bateram recordes de visitas, com 12,4 milhões de turistas. O ICMbio reconhece que o turismo de massa é um desafio e se compromete a melhorar a infraestrutura sem comprometer a biodiversidade. Enquanto isso, o Ministério do Turismo foca na promoção de um turismo responsável, diversificando a oferta turística e reduzindo a concentração de visitantes em determinados locais.
