Vulnerabilidade do Setor Agrícola
O Brasil enfrenta um grande desafio no que diz respeito à sua produção agrícola, especialmente em relação ao abastecimento de fertilizantes. Durante uma entrevista à Rádio USP, o professor Paulo Sérgio Pavinato, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), destacou que o país depende drasticamente de importações: mais de 80% dos fertilizantes utilizados na agricultura brasileira vêm do exterior. Essa situação gera preocupações sobre possíveis aumentos nos preços, dificuldades de suprimento e seus impactos diretos na produção de alimentos.
Pavinato, que possui mestrado em Ciência do Solo e doutorado em Agronomia, enfatizou que essa dependência é ainda mais acentuada em relação a nutrientes essenciais. Os dados revelam que o Brasil importa cerca de 95% do nitrogênio, mais de 95% do potássio e aproximadamente 70% do fosfato. Essa realidade coloca o país em uma posição vulnerável, especialmente diante de instabilidades geopolíticas nas regiões fornecedoras e potenciais restrições no comércio internacional.
Impacto Geopolítico e Segurança Alimentar
O Oriente Médio desempenha um papel crucial no fornecimento de fertilizantes, principalmente de nitrogênio e fosfato, o que torna o agronegócio brasileiro suscetível a crises nesse contexto. Na visão de Pavinato, as instabilidades não afetam apenas os preços imediatos, mas também comprometem a segurança do abastecimento nos ciclos agrícolas futuros. “A pressão sobre os preços e o suprimento é uma realidade que pode impactar a produção agrícola do Brasil”, alertou o professor.
Além disso, ele mencionou a reconfiguração do mercado global de fertilizantes. Por exemplo, o Marrocos se destaca como o principal fornecedor de fosfato para o Brasil, enquanto a Arábia Saudita tem ampliado sua participação no comércio de fertilizantes. Recentemente, as restrições ao fornecimento de nitrato pela Rússia têm dificultado a chegada de produtos mais acessíveis, intensificando a pressão no mercado internacional.
Desafios à Frente da Nova Safra
Atualmente, o Brasil está passando por um período de entressafra, resultando em uma demanda imediata reduzida por fertilizantes. Contudo, essa necessidade tende a aumentar entre julho e setembro, quando se inicia a preparação para a nova safra. Se as restrições no fornecimento persistirem até essa época, as consequências para a agricultura nacional poderão ser mais severas.
Outro aspecto a ser considerado é o aumento nos custos dos combustíveis, que impacta diretamente as operações agrícolas, como plantio, manejo e colheita, além de gerar efeitos indiretos no transporte de insumos e alimentos. Pavinato enfatiza que esses custos acabam refletindo no preço final para o consumidor: “Todos sentirão o impacto, pois isso afeta o custo de vida e o preço dos alimentos em nosso país”.
O Comércio Exterior e seus Efeitos
O Brasil importa cerca de 40 milhões de toneladas de fertilizantes anualmente, um dado que expõe a profunda dependência do setor em relação ao mercado externo. Embora nem toda essa quantidade seja proveniente das regiões atualmente afetadas por tensões internacionais, restrições logísticas e bloqueios comerciais em grandes polos produtores repercutem em cadeia sobre outros países importadores, incluindo o Brasil.
Em termos de comércio exterior, Pavinato acredita que o impacto nas exportações de alimentos brasileiras será menor, já que o Oriente Médio não é um dos principais destinos da produção agrícola nacional. No entanto, a dependência de fertilizantes e insumos energéticos aumenta a vulnerabilidade do Brasil frente à alta global de custos. Especialmente em produtos de maior valor agregado, a pressão sobre o frete é um fator que pode ser repassado ao consumidor final.
Perspectivas Futuras e Autossuficiência
Apesar desse panorama desafiador, o Brasil possui um Plano Nacional de Fertilizantes que visa fortalecer a produção interna a longo prazo. Contudo, Pavinato pondera que a autossuficiência plena é uma meta difícil de alcançar. “Até 2050, com os investimentos adequados, poderíamos produzir 50% da demanda, mas a autossuficiência é inviável devido à limitação de reservas de fosfato e potássio, além do alto custo da energia para a produção de nitrogenados”, analisou.
Na visão do professor, o verdadeiro desafio está em reduzir a vulnerabilidade do Brasil, ao invés de eliminar completamente as importações. Ele defende uma produção nacional mais estável, que possa atenuar os efeitos de conflitos e rupturas no mercado internacional, cada vez mais frequentes.
Pavinato também ressaltou que a importância do fosfato ultrapassa seu uso na agricultura, sendo essencial na produção de baterias e na conservação de alimentos processados. Essa relevância estratégica pode intensificar a competição global por reservas, uma vez que “quase todos os alimentos processados utilizam fosfato em sua conservação, impactando diretamente nossa alimentação”.
