Conflito entre EUA e Irã Impacta Mercados de Energia e Fertilizantes
A intensificação do conflito no Oriente Médio, especialmente após os recentes ataques coordenados de Estados Unidos e Israel ao Irã, trouxe um choque geopolítico com repercussões imediatas nos mercados globais de energia, fertilizantes e alimentos. Essa análise é ressaltada em um relatório do Itaú BBA, que indica um aumento da volatilidade e do prêmio de risco no cenário internacional.
A região do Oriente Médio, que concentra uma parte significativa da produção e escoamento de petróleo, gás natural e insumos agrícolas, é considerada estratégica para a economia global. Com a escalada da hostilidade militar, nações que dependem da importação de energia e fertilizantes — como o Brasil — enfrentam um ambiente de incerteza crescente.
Petróleo em Alta e Desafios na Logística Global
Um dos principais canais que transmite os impactos do conflito para a economia global é o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial e volumes significativos de gás natural. Após os ataques, várias restrições à navegação foram registradas, fazendo com que empresas marítimas evitassem essa rota, o que gerou um aumento nos custos de seguro e frete.
Como resultado, o preço do petróleo tipo Brent disparou mais de 10%, superando a marca de US$ 80 por barril — um nível não visto desde o início de 2025. Para o agronegócio brasileiro, o impacto é iminente. O aumento no preço do petróleo encarece o diesel, um insumo imprescindível nas operações agrícolas e no transporte da produção. Em um país que depende fortemente do transporte rodoviário, a alta do combustível reduz as margens de lucro, principalmente em culturas com menor valor agregado. Além disso, o aumento do frete marítimo também encarece as exportações de grãos, carnes e açúcar.
Pressão sobre o Mercado de Fertilizantes
No contexto atual, o mercado de fertilizantes se destaca como o ponto mais vulnerável da crise. O Oriente Médio é responsável por mais de 40% das exportações globais de ureia e desempenha um papel significativo na oferta de amônia e fosfatados. O Irã, um dos principais produtores de fertilizantes nitrogenados, tem um papel central no fornecimento regional de gás natural.
Com a intensificação do conflito, fornecedores da região suspenderam suas ofertas no mercado internacional. Recentemente, a ureia teve um aumento superior a 10% em poucos dias, alcançando cotações no Egito acima de US$ 540 por tonelada. Esse movimento é resultado tanto do risco de interrupção na produção quanto da alta no preço do gás natural, essencial na fabricação de nitrogenados.
O Catar, por exemplo, paralisou a produção em sua maior planta de exportação de gás natural após um ataque a suas instalações. Na Europa, os preços do gás natural dispararam durante a semana.
Dependência do Brasil e Oportunidades de Cautela
O Brasil é altamente dependente das importações de fertilizantes, consumindo entre 80% e 85% do que utiliza. Aproximadamente um terço da ureia importada provém direta ou indiretamente do Oriente Médio. Embora o Irã represente uma parcela pequena das compras brasileiras em 2025, sua influência sobre os preços regionais e o fornecimento de gás a outros exportadores é indiscutível.
No curto prazo, o efeito pode ser parcialmente mitigado pela sazonalidade. O país não se encontra no pico de aquisição de nitrogenados, o que permite uma formação de estoques mais cautelosa. Para a safra 2025/26, praticamente todo o volume necessário já foi comprado. Já para a safra de verão 2026/27, cerca de 30% do volume esperado foi adquirido, abaixo da média histórica de 40%. Essa situação gera um dilema ao produtor: antecipar compras diante do risco de novas altas ou aguardar uma possível estabilização dos preços.
Preocupações com o Fluxo Comercial
O Oriente Médio também se configura como um mercado relevante para as exportações brasileiras de milho, carne de frango, carne bovina e açúcar. Em 2025, o Irã respondeu por cerca de 23% das exportações de milho do Brasil. Até o presente momento, analistas não preveem uma ruptura significativa no fluxo comercial. Contudo, alertam que restrições prolongadas no Estreito de Ormuz poderão elevar os custos logísticos e demandar rotas alternativas.
Fatores que Podem Mitigar o Risco
Apesar dos desafios, existem fatores que podem ajudar a mitigar parte do risco. A reativação de unidades de produção de fertilizantes no Nordeste do Brasil oferece alguma proteção ao mercado interno. Além disso, a diversificação de fornecedores e a adoção de alternativas como sulfato de amônio se tornam cada vez mais relevantes em um ambiente de preços elevados.
No cenário internacional, produtores nos Estados Unidos ainda precisam adquirir uma parte do nitrogênio para a safra 2026/27. O próprio USDA indica uma previsão de redução de 5% na área plantada de milho em comparação com a safra anterior, um movimento que pode se acentuar se os preços dos fertilizantes continuarem elevados. Agricultores da Europa e da Índia também precisarão ir ao mercado nos próximos meses para reabastecer seus estoques.
Uma Estratégia de Cautela Necessária
Diante de toda essa incerteza, especialistas aconselham que os produtores brasileiros monitorem de perto a evolução dos preços internacionais. A combinação de tensões geopolíticas persistentes, o aumento nos custos de energia e a alta dependência externa ampliam os riscos de deterioração das condições de compra.
