Desafios Emergentes no Agronegócio Brasileiro
A recente crise geopolítica na Venezuela, intensificada pelos eventos do último fim de semana que culminaram na saída de Nicolás Maduro do poder, acendeu um alerta no setor agrícola brasileiro. Embora o país vizinho represente uma parcela relativamente pequena das exportações brasileiras, ele possui um histórico de forte dependência de produtos agropecuários oriundos do Brasil, uma relação que se consolidou ao longo de décadas de instabilidade política e econômica. As informações foram fornecidas pela Sociedade Nacional de Agricultura (SNA).
Entre 2016 e 2025, as exportações do Brasil para a Venezuela totalizaram aproximadamente US$ 6,95 bilhões, com o envio de 10,55 milhões de toneladas de diversos produtos. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) revelam que essa pauta exportadora focou em itens essenciais para a segurança alimentar, como cereais, açúcar e proteínas animais. Após um período de forte retração durante os anos mais críticos da crise venezuelana, os fluxos comerciais começaram a se recuperar em 2020. No acumulado do período, a balança comercial se mostra amplamente favorável ao Brasil.
No entanto, com a deterioração do cenário político, cresce a incerteza sobre a continuidade dos negócios já firmados. Contratos em execução podem ser interrompidos, causando impacto no planejamento de produtores e empresas brasileiras que contam com esse mercado. A Venezuela enfrenta uma grave escassez de divisas devido à queda prolongada na produção de petróleo, uma situação que tende a se agravar em razão da destruição de infraestrutura e da incerteza sobre a nova liderança política do país.
A imprevisibilidade no Setor Agropecuário
Atualmente, as empresas do setor agropecuário operam em um ambiente repleto de imprevisibilidade. Não há clareza sobre quem assumirá o controle efetivo da Venezuela nas próximas semanas, qual será a política econômica adotada ou se haverá capacidade de honrar pagamentos por cargas já embarcadas ou em negociação. O risco de restrições comerciais, represálias diplomáticas ou realinhamento de parcerias regionais impõe uma pressão adicional sobre acordos, logística e a confiança entre Brasília e Caracas.
Essa situação se torna ainda mais crítica, pois a Venezuela é parte da estratégia brasileira de suprimento de fertilizantes. Em um contexto de elevada dependência externa e quase inexistência de produção local, qualquer interrupção nas remessas poderá afetar diretamente os custos de produção do agronegócio nacional. Além disso, o interesse estratégico dos Estados Unidos no petróleo venezuelano — que abriga as maiores reservas do mundo — pode ocasionar oscilações nas cotações internacionais, impactando indiretamente outras commodities.
Um Desafio Diplomático e Comercial
Esse momento se apresenta como mais um desafio diplomático para o Brasil, que mantém relações comerciais significativas com os dois lados em tensão. No caso dos Estados Unidos, o chamado “tarifaço” de 2025 causou um impacto considerável na cadeia produtiva agropecuária brasileira, superado apenas após negociações delicadas. O rearranjo de poder na América do Sul já está em processo, com os EUA buscando recuperar espaço em mercados onde a China se consolidou nas últimas décadas.
A conjuntura atual exige uma resposta coordenada entre governo e setor privado, com foco na proteção de contratos vigentes, no monitoramento do fornecimento de insumos estratégicos e na preparação para eventuais choques de oferta. Em uma entrevista à Jovem Pan em outubro, o cientista político Marcos Troyjo, recentemente eleito para a Academia Nacional de Agricultura da SNA, alertou sobre os riscos de uma nova politização nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos devido à instabilidade regional.
“Além da Venezuela, a Colômbia também enfrenta forte pressão do governo Trump, com seu presidente sendo alvo de sanções. O Brasil precisa agir com cautela em um cenário que envolve diretamente seus vizinhos, a fim de evitar tensões novas nas agendas comerciais estratégicas com os Estados Unidos”, destacou Troyjo, antes da recente incursão militar que levou à deposição de Nicolás Maduro.
