Riqueza Histórica e Cultural em Curitiba
A erva-mate desempenhou um papel crucial na formação da elite econômica de Curitiba durante o século XIX e o início do século XX. Conhecidos como os “barões da erva-mate”, os proprietários dessa planta construíram residências amplas e sofisticadas, que se tornaram verdadeiros palácios e palacetes, refletindo os padrões de conforto e luxo da elite europeia da época.
O historiador Marcelo Sutil destaca que esses casarões históricos são testemunhos da evolução urbana da cidade. “Imóveis como o Palacete dos Leões, a Casa Gomm, o Palacete Guimarães e a Villa Odette têm referências diretas aos ciclos da erva-mate e do café, além de preservar características arquitetônicas de diferentes períodos”, afirma Sutil.
Esses espaços, além de serem importantes para a história, abrigam atividades culturais e institucionais, mantendo sua relevância na paisagem urbana. “Esses imóveis demonstram que é possível preservar a memória urbana ao mesmo tempo que se aproveita para novos usos”, complementa o arquiteto e urbanista Fábio Domingos Batista.
O Palacete dos Leões e seu Legado
Erguido em 1902 pelo engenheiro Cândido de Abreu, o Palacete dos Leões foi projetado para ser a residência da família Leão, fundadora da famosa empresa Matte Leão. Segundo Domingos Batista, o imóvel abrigou por várias décadas os descendentes de Maria Clara Abreu de Leão e Agostinho Ermelino de Leão Júnior.
“O Palacete dos Leões representa o auge econômico do ciclo da erva-mate, combinando soluções construtivas modernas da época com artesanato de alto nível, produzido tanto por artistas locais quanto estrangeiros”, explica o arquiteto. Entre seus elementos de destaque, estão os leões ornamentais do jardim, peças importadas da Fábrica Santo Antônio do Vale da Piedade, uma tradicional indústria cerâmica de Portugal.
Este palacete é um exemplo do ecletismo arquitetônico que predominava em Curitiba naquele período. Com uma mistura de estilos como neoclássico, barroco e art nouveau, o casarão exibe uma estrutura imponente, incluindo escadaria principal, terraço e diversos ornamentos, como pilastras e capitéis coríntios. Atualmente, o espaço é de propriedade do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e serve como centro cultural, tendo sido tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 17 de dezembro de 2003.
A Casa Gomm e seu Valor Histórico
A Casa Gomm, construída em 1913 pelo industrial inglês Henry Blas Gomm e sua esposa Isabel Withers, destaca-se por sua estrutura de madeira e pelo uso do sistema balloon frame. “Esse modelo, que era raro no Paraná, permite que os montantes de madeira se estendam da base ao telhado em uma única peça”, explica Domingos Batista.
O imóvel esteve inserido em uma área verde conhecida como Bosque Gomm e se tornou um importante espaço social ao longo das décadas. O historiador Marcelo Sutil menciona que a casa foi palco de grandes celebrações, especialmente entre os anos 1950 e 1960, quando Harry Gomm, filho de Henry, atuava como vice-cônsul da Inglaterra na cidade.
Em um evento simbólico, a família Gomm promoveu uma grande festa para comemorar a coroação da rainha Elizabeth II em 1953. Além disso, a chegada da miss Brasil, Martha Rocha, em 1954, também gerou uma celebração que reuniu a elite da sociedade local. A casa foi vendida na década de 1980 e, nos anos 2000, foi parcialmente desmontada e transferida 200 metros dentro do terreno original, para dar espaço a um empreendimento comercial. Atualmente, abriga a Coordenação de Patrimônio Cultural do Paraná e é tombada desde 1989.
O Castelo do Batel: Uma Mistura de Estilos
Localizado no bairro Batel, o Palacete Guimarães, conhecido como Castelo do Batel, foi iniciado em 1924 pelo cafeicultor e cônsul honorário da Holanda, Luiz Guimarães. O projeto, assinado pelo arquiteto Eduardo Fernandes Chaves, foi inspirado na arquitetura dos palacetes franceses do Vale do Loire, com o objetivo de trazer um pouco da sofisticação europeia à capital paranaense.
Marcelo Sutil explica que a obra, concluída em quatro anos, utilizou materiais importados da Europa e recebeu diversas personalidades históricas, incluindo os presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. “O Castelo do Batel é um dos exemplos mais importantes que temos na cidade”, destaca Sutil, lembrando que, em 1947, o imóvel abrigou o governador Moysés Lupion.
Na década de 1970, passou a sediar a TV Paranaense, e reformas nos anos 2000 adaptaram o espaço para eventos, preservando suas características originais. O tombamento estadual em 31 de janeiro de 1975 reconheceu sua importância como patrimônio cultural do Paraná.
Villa Odette: Conforto e Estilo na Era da Erva-Mate
Construída entre 1923 e 1928, a Villa Odette foi encomendada pela família Leão ao arquiteto Eduardo Fernando Chaves. Situada no Alto da Glória, a residência utiliza a técnica de enxaimel, típica da arquitetura alemã, e possui uma área construída de 825 metros quadrados, refletindo a prosperidade do ciclo da erva-mate na cidade.
O arquiteto Fábio Domingos Batista explica que o termo “villa” se refere a uma casa em um amplo terreno ajardinado, sem afastamentos laterais. A Villa Odette é distribuída em dois pavimentos, com sótão e porão, e surpreende por seu padrão de conforto elevado para a época, oferecendo várias lareiras e banheiros equipados com água quente e itens importados. Atualmente, a casa continua a ser residência da família Leão.
