A Denominação de Origem e Seu Impacto no Café de Mandaguari
“Em lugar nenhum você encontra café igual ao de Mandaguari”, ressalta Antônio Carlos Ricardo, um dedicadíssimo produtor de 62 anos que tem o café como paixão. Ele trabalha com a cultura do grão na região há mais de uma vida, pois sua família se dedica a essa atividade há aproximadamente 100 anos. O segredo, segundo ele, está na riqueza do terroir do Noroeste do Paraná, que conferiu a bebida local um reconhecimento especial. Em 2017 e 2018, Mandaguari foi laureada como o melhor café do Brasil na categoria “natural” no concurso “Nosso Café Yara”.
No dia 1º de julho de 2025, o Café de Mandaguari conquistou o selo de Denominação de Origem (DO), uma forma de Indicação Geográfica (IG) concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Essa certificação é um marco para os produtos que possuem características singulares ligadas ao seu contexto geográfico, como clima e solo. Com isso, o Café de Mandaguari tornou-se o 20º produto paranaense a obter tal distinção.
A Denominação de Origem abrange uma área que envolve seis cidades do Noroeste do Paraná: Mandaguari, Jandaia, Cambira, Marialva, Apucarana e Arapongas. A importância econômica da cafeicultura na região não pode ser subestimada. No estado, aproximadamente 8 mil produtores rurais se dedicam ao cultivo do café, sendo que 85% deles operam em regime de agricultura familiar, o que fortalece a economia local.
Avaliação do Mercado e Crescimento da Cafeicultura
Os números refletem a ascensão do setor. Em 2025, o valor da saca de café atingiu R$ 2.083,57. De acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral), ligado à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), a receita da cafeicultura superou a marca de um bilhão de reais, saltando de R$ 563 milhões em 2024 para R$ 1,1 bilhão.
Antônio Carlos dá continuidade ao legado familiar que começou com seu avô. Desde a infância, ele acompanha as atividades no campo e carrega uma vasta experiência. Ele vivenciou desde a era de trabalho manual até a modernização com o uso de maquinários, além de enfrentar dificuldades como a Geada Negra de 1975 e os desafios mais atuais de produzir cafés especiais.
Com a conquista do selo do INPI, Antônio Carlos está otimista quanto à possibilidade de os produtores da região agregarem valor aos grãos especiais. Fernando Rosseto, produtor rural e presidente da Associação dos Produtores de Café de Mandaguari, complementa que o foco da associação é especializar ainda mais os produtores na cafeicultura de qualidade.
Apesar de o selo ter sido conquistado há menos de um ano, a associação já percebe uma mudança significativa: o número de associados saltou de 20 para 46. Fernando também destaca que a produção de cafés especiais aumentou de três para dez produtores em apenas sete meses, mostrando um claro avanço na qualidade.
Características que Tornam o Café de Mandaguari Incomparável
As lavouras localizadas a mais de 600 metros de altitude proporcionam um clima ideal, com invernos frios e secos e verões quentes e úmidos. Essas condições favorecem um amadurecimento lento e equilibrado dos grãos, resultando em uma doçura acentuada. Além disso, o solo é rico em minerais, características que tornam o café de Mandaguari verdadeiramente especial.
A presença restrita de bactérias na região é outro ponto positivo, pois reduz a fermentação indesejada e preserva os açúcares naturais do café durante o processo de torra. A agricultura familiar tem se mostrado um pilar forte, garantindo que técnicas locais sejam valorizadas e transmitidas entre gerações.
O sabor do café produzido na região é uma combinação de notas florais e frutadas, com toques cítricos e um leve fundo de caramelo e chocolate. Essa riqueza sensorial faz do café de Mandaguari uma verdadeira experiência para os apreciadores.
A Importância do Café na Cultura Brasileira
O café está profundamente enraizado na cultura do Brasil, sendo consumido diariamente por cerca de 96% da população, conforme uma pesquisa de 2025 realizada pelo Instituto Axxus para a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Os dados revelam que 87% dos entrevistados acreditam que produtos com o selo de qualidade Abic são superiores, indicando uma crescente demanda por qualidade.
Entretanto, o cultivo de cafés especiais demanda mais atenção e cuidado dos produtores. Fernando explica que esses grãos são rigorosamente selecionados, precisam ser colhidos no ponto ideal e passar por processos adequados de secagem e torra para garantir um sabor excepcional.
Embora represente apenas 30% de sua produção total, o café especial é uma aposta que vale a pena. Fernando compartilha que, em uma safra fraca, conseguiu produzir apenas 15% de grãos especiais, demonstrando o quanto esse tipo de café é desafiador, mas recompensador.
Mandaguari: A Capital do Café no Paraná
A importância do café é tamanha em Mandaguari que, desde 2012, a cidade ostenta o título de Capital do Café do Paraná. Antônio Carlos reconhece que o trabalho é árduo e exige atenção constante durante todo o ano. No entanto, sua paixão pela cafeicultura brilha ao afirmar: “A gente tem a raiz”. Essa conexão profunda com a terra e o produto é um testemunho da dedicação que une gerações na produção do café. Fernando, sendo a quarta geração da família no ramo, compartilha o mesmo sentimento. Para ele, a cafeicultura é a própria vida e um legado que deve ser mantido.
