Rede de Ativistas Climáticos em Curitiba
A Prefeitura de Curitiba divulgou, em 2019, estudos sobre as emissões de gases de efeito estufa no município, despertando a mobilização de um grupo de jovens ativistas. Eles lançaram a campanha popular “Libera os dados Marilza”, que pressionou a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, coordenada na época pela secretária Marilza Dias, a disponibilizar esses dados ao público. O último levantamento havia sido realizado em 2013, criando um cenário urgente para a necessidade de informações atualizadas.
A partir dessa mobilização inicial, surgiu a Rede Curitiba Climática (Recc), que se consolidou como uma das organizações não governamentais mais relevantes no combate às mudanças climáticas na cidade. A Recc atua em várias frentes, incluindo educação e formação de cidadãos críticos e informados sobre as questões climáticas, além de ações diretas que visam conscientizar e mobilizar a população.
Os membros da Recc são jovens com formações diversas, incluindo advogados, engenheiros ambientais, comunicadores e professores, que se organizam de forma horizontal, sem uma liderança centralizada. Atualmente, a rede conta com um núcleo de 22 integrantes, mas ao longo de cinco anos de atuação, conseguiu construir uma rede de quase 200 colaboradores, incluindo ativistas e membros da sociedade civil.
Desafios e Evolução do Ativismo
Carolina Efing, uma das ativistas fundadoras, ressalta que a formação do grupo ocorreu em um período desafiador, marcado por uma severa crise hídrica, queimadas no Pantanal e a pandemia de Covid-19. “Existia um sentimento muito forte de fim do mundo mesmo”, comenta Carolina, que é advogada e mestranda em Sociologia na Universidade Federal do Paraná.
As atividades do grupo, que inicialmente eram remotas devido à pandemia, incluem a análise do Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas (Planclima) de Curitiba e evoluíram para ações práticas e efetivas. A Recc desenvolve três frentes de atuação que se complementam: educação, com oficinas em escolas e comunidades; ações diretas, como o plantio de árvores; e auditoria social, também conhecida como advocacy, promovendo diálogos com o poder público para garantir que as demandas e responsabilidades sejam cumpridas.
A Importância do Ativismo Ambiental
Rodolfo Lobato, professor do Departamento de Sociologia da UFPR e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento (PPGMade), destaca que o discurso ambiental não está presente de forma uniforme em Curitiba. “Basta transitar pela cidade para notar que as áreas verdes e os parques não estão distribuídos de maneira equilibrada. Existem bairros que são desconsiderados, enquanto outras áreas são beneficiadas”, observa.
A Recc atua de maneira significativa dentro desse contexto, promovendo oficinas ambientais em diversos bairros, incluindo o Parolin, reconhecido por sua vulnerabilidade. Essas oficinas englobam atividades como plantio de árvores e orientações sobre a conclusão de obras públicas, além de conscientização ambiental.
De acordo com Rodolfo, o conceito de cidade sustentável é limitado quando não considera a escala metropolitana e nacional. “Não vejo como uma cidade pode ser considerada verde se sua metrópole não o é”, afirma. Ele ressalta que políticas locais não podem ser dissociadas de uma visão mais ampla.
Conquistas e Mobilizações da Recc
Entre as conquistas da Recc estão as oficinas realizadas em regiões como Boqueirão e Cajuru, além do Parolin. Carolina se orgulha especialmente da participação na organização do ato “Chega de fumaça”, ocorrido em setembro de 2024. Este evento mobilizou diversos movimentos sociais, organizações ambientais e cidadãos, resultando em uma significativa concentração de pessoas nas ruas para alertar sobre o aumento preocupante dos incêndios florestais no Brasil.
A Recc também desempenha um papel importante em Curitiba ao colaborar com pesquisas que compõem o Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP), desenvolvido pela Transparência Internacional. Essa ferramenta avalia periodicamente a transparência das esferas governamentais brasileiras. A participação da Recc reforça a importância da sociedade civil no monitoramento das políticas públicas e na reivindicação por dados abertos e uma governança ambiental efetiva.
