O Novo Rumo de Abadiânia
Localizada no Entorno do Distrito Federal, Abadiânia vivencia uma fase de mudanças significativas após a prisão de João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus. Condenado a quase 215 anos de prisão por crimes sexuais, o médium deixou um legado complicado para a cidade, que sempre dependia do turismo religioso centrado na Casa de Dom Inácio. Desde então, o cenário local tem sido marcado pelo fechamento de restaurantes e pousadas, refletindo uma realidade desafiadora. Entretanto, a Prefeitura de Abadiânia assegura que a cidade não está completamente abandonada pelo turismo, agora voltando suas atenções para o Lago Corumbá IV e as romarias locais.
A equipe do g1 percorreu as ruas da cidade, que um dia foram movimentadas pelos visitantes em busca de atendimentos espirituais, e constatou como a comunidade se adapta ao novo contexto. Locais que antes eram afluentes de turistas agora apresentam um panorama diferente, mas a cidade continua resiliente em sua busca por desenvolvimento.
A Casa de Dom Inácio e Seu Legado
A visita à Casa de Dom Inácio revelou um ambiente desolado. O que antes era um ponto de encontro fervilhante de pessoas em busca de curas agora se mostra vazio, com os atendimentos reduzidos ao mínimo. Embora a Casa permaneça aberta, as atividades são escassas e os poucos visitantes são uma lembrança dos dias de glória do espaço. O responsável pela administração, Hamilton Pereira, declarou que o turismo religioso praticamente desapareceu desde as denúncias contra João de Deus.
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A cidade, que conta com cerca de 17 mil habitantes, já recebeu turistas e celebridades de várias partes do mundo. A italiana Ida Damico, que reside no Brasil há 24 anos, compartilhou sua experiência. Ela administrava uma pousada nas proximidades da Casa, que prosperou durante o auge da popularidade do médium entre 2002 e 2019, mas que agora serve como sua residência após o fechamento forçado.
Ida relembra que, mesmo após as primeiras denúncias contra o médium em 2014, a procura pelo turismo religioso parecia resistir. Entretanto, a situação se deteriorou rapidamente após a prisão de João de Deus, um colapso acentuado pela pandemia de Covid-19, que afetou a economia local de forma drástica.
Desafios do Comércio Local
Entre os estabelecimentos fechados na rua da Casa de Dom Inácio, um restaurante ainda se mantém ativo. Sua proprietária, que preferiu não se identificar, recordou que, durante os atendimentos, filas de veículos eram comuns na Avenida Francisco Teixeira Damas. Atualmente, a clientela tem se reduzido a empresários e visitantes que vêm a Abadiânia a trabalho.
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Ambas as empresárias, Ida e a dona do restaurante, expressaram ceticismo quanto ao retorno do turismo religioso na cidade sem a presença de João de Deus. Ida, que afirma ter sido curada pelo médium, enfatiza a conexão que muitos ainda têm com a espiritualidade que ele representava.
João de Deus: O Legado Polêmico
A situação de João de Deus continua a ser um assunto de interesse. Ele foi condenado por múltiplos crimes de estupro de vulnerável e violação sexual, somando uma pena total que ultrapassa 214 anos. Desde dezembro de 2018, cumpre pena, e mesmo durante a pandemia, teve sua prisão convertida para domiciliar em Anápolis. Em 2023, novas condenações foram aplicadas, mas ele permanece em prisão domiciliar enquanto aguarda julgamento no Superior Tribunal de Justiça.
Um Novo Capítulo para Abadiânia
Apesar dos desafios, Abadiânia ainda busca reinventar seu apelo turístico. Daniel Antônio, secretário de Turismo da cidade, comentou que a cidade ainda atrai visitantes, especialmente durante a tradicional Romaria de Nossa Senhora da Abadia e São Roque, que há mais de 153 anos mobiliza fiéis. Uma nova adição ao calendário é a Romaria Náutica no Lago Corumbá IV, que promete revitalizar a cena religiosa da cidade. O evento consiste em um barco que transporta a imagem de Maria do Santuário de Abadiânia Velha, com várias embarcações acompanhando ao longo do percurso.
A nova proposta, impulsionada por empreendimentos ao redor do lago, busca criar um espaço vibrante para atividades turísticas. Marcelo Bizinoto, vice-presidente do condomínio Escarpas, destacou os planos para investimentos significativos, incluindo uma marina, restaurantes e uma vila gastronômica. Nelson Alves, diretor comercial de um grupo de empreendimentos na área, também mencionou a crescente oferta de atividades turísticas, como locação de embarcações e passeios guiados, que prometem revitalizar a região.
Embora o contexto tenha mudado drasticamente, Abadiânia demonstra coragem e criatividade em buscar novos caminhos para o turismo, mantendo viva a esperança de um futuro mais próspero, mesmo diante das dificuldades passadas.
