Fortalecendo Laços Culturais
Na última terça-feira (31), Brasil e Angola celebraram acordos que visam intensificar a colaboração cultural entre os dois países. O evento, coordenado pelo Ministério da Cultura (MinC) e realizado na Fundação Cultural Palmares (FCP) em Brasília, integrou a missão oficial da comitiva angolana ao Brasil. A cerimônia contou com a presença de autoridades de ambos os países e formalizou diversas ações nas esferas da cultura e da memória, visando conectar o passado compartilhado à construção de iniciativas conjuntas no atual contexto.
No curso da cerimônia, foram firmados três importantes acordos: um entre a Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e o Arquivo Nacional de Angola, e um Memorando de Entendimento focado na cooperação cultural e artística. Além disso, foi emitida uma declaração conjunta que reafirma o compromisso com o intercâmbio artístico, a valorização das culturas afrodescendentes e a criação de políticas culturais que beneficiem ambos os países.
Um Novo Capítulo nas Relações Brasil-Angola
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, enfatizou que os acordos representam um novo momento nas relações entre o Brasil e a África, com ênfase na realização de ações concretas. “Estamos comprometidos em dar materialidade ao que estamos construindo. Esses acordos fortalecem as relações culturais e marcam o início de uma nova fase de intercâmbio entre nossos povos. A cultura nos une, é um espaço de resistência e um motor de transformação que nos permite sonhar com um futuro mais pacífico e justo”, declarou.
O ministro da Cultura de Angola, Filipe Silvino de Pina Zau, também comentou sobre a significância da parceria, ressaltando a necessidade de aprofundar a colaboração entre os dois países. “A nossa história em comum justifica uma cooperação mais robusta entre Angola e Brasil. Que este momento seja o começo de relações culturais ainda mais profícuas, sem esquecer da necessidade de justiça reparadora para africanos e afrodescendentes”, afirmou.
Documentos Históricos e Memória Coletiva
A Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e o Arquivo Nacional de Angola assinaram um acordo que permitirá a disponibilização de 108 códices ao público por meio do Projeto Resgate Barão do Rio Branco. Esta iniciativa é crucial para a pesquisa sobre a história da escravidão no Brasil, ampliando o acesso a fontes documentais que são essenciais para entender as relações entre os dois países. O material estará disponível em aproximadamente 30 dias no site do projeto.
Marco Lucchesi, presidente da FBN, destacou a relevância simbólica da iniciativa e o papel da memória na aproximação entre Brasil e África. “Não há oceano que nos separe; é uma ilusão. O que existe é uma ponte simbólica que nos conecta. Precisamos agir rapidamente, pois o futuro deve ser moldado agora, a partir da memória e das pluralidades que nos constituem”, ressaltou.
Cooperação Estrutural e Ações Conjuntas
O conjunto de documentos reúne informações sobre a relação histórica entre Brasil e Angola, abrangendo os séculos XVII a XX, e inclui registros sobre o tráfico de escravizados, atividades comerciais e outros aspectos cruciais dessa formação histórica. Esse material foi digitalizado por uma equipe de historiadores brasileiros, especialistas em pesquisa africana, que fazem parte do Projeto Acervo Digital Angola-Brasil (PADAB), e está em constante atualização sob a coordenação da professora Crislayne Alfagari, da PUC-Rio.
Luciano Figueiredo, coordenador do Projeto Resgate Barão do Rio Branco, enfatizou a importância desse acordo, afirmando que a divulgação desses documentos será um feito extraordinário, permitindo que pesquisadores acessem informações que antes estavam restritas a Angola. “Essa iniciativa revela o drama do tráfico de pessoas e outros aspectos significativos da história compartilhada, sinalizando uma nova fase para o Projeto Resgate e a FBN, cuja missão inclui ser um centro de referência na divulgação da nossa história comum”, completou.
Perspectivas Futuras
A agenda também foi marcada pela assinatura do Memorando de Entendimento que estabelece uma base estruturante para a cooperação bilateral nas áreas de cultura e artes. O documento promove um intercâmbio de conhecimentos, capacitação de profissionais e desenvolvimento de ações conjuntas em áreas essenciais da produção cultural e artística.
Entre os eixos prioritários estão a preservação do patrimônio cultural material e imaterial, a troca de experiências em documentação e restauração, além do intercâmbio de artistas e pesquisadores. Com validade inicial de cinco anos, o memorando não prevê a transferência direta de recursos, mas estabelece bases sólidas para a construção de projetos conjuntos, fortalecendo assim as políticas culturais compartilhadas entre Brasil e Angola.
Ao finalizar a cerimônia, Margareth Menezes ressaltou como a cultura, a memória e as políticas públicas podem caminhar juntas. “Estamos criando uma política cultural que dialoga com o mundo, mas que também olha para nossa história com responsabilidade. Esta cooperação é um exemplo de que cultura, memória e política pública são interdependentes”, concluiu.
