A Ópera e Sua Conexão com a Cidade
Fortunato Ortombina, atual diretor-geral do famoso Teatro Scala de Milão, reflete sobre a profunda relação entre a ópera e a cultura contemporânea. “Certa vez, durante uma pesquisa sobre Hilderaldo Bellini, capitão da seleção brasileira de 1958, me perguntei se haveria algum vínculo entre ele e o compositor Vincenzo, de Catania. Descobri que a família do zagueiro originou-se no Vêneto”, compartilha Ortombina, um torcedor apaixonado da Inter de Milão.
Desde que assumiu o cargo em 2025, após um mandato na La Fenice, Ortombina tem desempenhado um papel crucial na cena artística milanesa. O Scala, uma das casas de ópera mais icônicas do mundo, é gerido por um conselho que inclui o prefeito da cidade, o Ministério da Cultura, a Câmara de Comércio e diversos patrocinadores. A abertura da temporada no Scala, coincidente com feriados locais, é um evento que envolve a cidade, assim como as comemorações da Semana de Moda e o Salão do Automóvel.
Desafios e Expectativas na Programação
Com um mandato que se estenderá até 2030, Ortombina herdou uma programação ambiciosa de seu antecessor, incluindo o monumental ciclo “O Anel do Nibelungo”, de Wagner. A regência da australiana Simone Young trouxe à tona uma exuberância musical, destacando as performances de vozes como Brünnhilde, interpretada por Camila Nylund. As oposições do diretor de cena McVicar apresentaram um espetáculo visual impressionante, embora alguns elementos tenham dividido opiniões.
A temporada de 2026/27, já anunciada, trará “Otello”, de Verdi, marcado pela estreia do sul-coreano Myung-whun Chung como regente titular. Para 2027/28, uma nova produção de “Um Baile de Máscaras”, também de Verdi, será dirigida pelo cineasta Luca Guadagnino, conhecido por “Me Chame Pelo Seu Nome”. Ortombina demonstrou também um interesse renovado em Carlos Gomes, mencionando a produção de “Salvador Rosa”, prevista para julho no Municipal do Rio.
A Relação entre Ópera e a Atualidade
A relevância da ópera, segundo Ortombina, permanece inquestionável. Ele afirma: “A ópera é a linguagem mais transversal para todas as civilizações. Não há quem não tenha escutado uma nota de Puccini”. O diretor destaca que canções icônicas, como o “Vincerò” de Nessun dorma, ecoam até nos rincões mais distantes, como nas comunidades indígenas da Amazônia. Isso a torna uma fonte de inspiração e narrativa para diversas formas de arte contemporânea, desde o cinema até a televisão.
“Verdi, Puccini e Carlos Gomes não são apenas compositores, mas também profetas. Daqui a 500 anos, suas obras ainda serão essenciais para a compreensão da condição humana”, reflete Ortombina, enfatizando que a ópera continua a oferecer novas interpretações e experiências ao espectador. Ele acredita que, apesar das novas formas de entretenimento, a experiência ao vivo no teatro ainda é insubstituível.
Inovações e Futuro da Ópera
Sobre a necessidade de adaptar a ópera ao moderno espectador, Ortombina pondera: “Ouvi muitas vezes que a pandemia alterou a percepção do público, mas na verdade, os teatros na Itália estão mais cheios do que antes. As pessoas ainda valorizam a excelência da performance ao vivo”.
Exemplos como a recente encenação de “O Nome da Rosa”, baseada na obra de Umberto Eco, com um compositor emergente, mostraram que há espaço para novidades no repertório. “O teatro lotou, e o público buscou algo inédito, reconhecendo suas referências”, diz Ortombina, que se mostra otimista em relação ao futuro da ópera e ao interesse crescente dos jovens.
A Relação Brasil-Itália na Ópera
O diretor menciona a importância de Carlos Gomes na cultura operística e sua ligação com Milão. “Gomes é um compositor essencial, e a história que ele representa é única”, afirma. Ortombina acredita que há uma grande oportunidade de explorar narrativas brasileiras mais profundas, como as obras de Jorge Amado, que retratam a vida e a natureza de forma rica e poética.
O Papel da Música no Teatro Contemporâneo
Por fim, Ortombina reflete sobre os riscos e desafios enfrentados pelos teatros em tempos polarizados. “É preciso sempre saber o que se está arriscando. Mesmo com possíveis críticas, a música é soberana e sempre encontrará seu espaço”, conclui, reafirmando a vitalidade da ópera e seu papel duradouro na cultura.
