Uma Luta Histórica por Território
Na madrugada de 6 de janeiro, cerca de 36 famílias do povo indígena Xetá protagonizaram um momento marcante ao fundar a Terra Indígena Tikuein Iratxó, localizada no distrito de Terra Nova, em São Jerônimo da Serra, no norte do Paraná. Esta ocupação histórica foi uma resposta direta à luta dos indígenas, que aguardam há mais de 25 anos pela demarcação de seu território ancestral, a TI Herarekã Xetá, na Serra dos Dourados. Essa é a primeira ação de retomada dos Xetá desde o genocídio que praticamente dizimou a população de seu povo, forçando os sobreviventes ao exílio. Ao realizar essa ocupação, os Xetá transformam anos de espera e inação em uma ação direta, reivindicando com determinação seu direito à terra, fundamental em sua luta pela sobrevivência e identidade.
Recentemente, um grupo do Comitê de Apoio ao AND de Curitiba visitou a nova terra para oferecer suporte e conversar com Julio Xetá, uma das figuras proeminentes do povo. Conhecido por seu nome na língua nativa, Tikuen Hararau, ele é filho de Tikuein Iratxó, um dos poucos sobreviventes do genocídio Xetá ocorrido na década de 1950, cuja memória a ocupação homenageia. Julio expressou a importância dessa luta, dizendo: “É pensando bastante nele, porque ele morreu lutando e a gente deu prosseguimento. Nada mais justo do que fazer uma homenagem para ele. Era um sonho dele ver os filhos e netos em um território que pudesse ser chamado de nosso”. Essa declaração reflete a determinação e a altivez que guiam o povo na realização dessa que é uma tarefa histórica.
A Terra Indígena Tikuein Iratxó está situada em um pequeno município do Paraná, a cerca de 400 km de seu território original na Serra dos Dourados. A escolha de estabelecer-se tão longe de casa é consequência do projeto de colonização que devastou as terras dos Xetá, forçando os poucos sobreviventes a buscar abrigo em locais distantes. Julio narra a trajetória de seu pai, que, após ser expulso de sua terra, percorreu diversas aldeias do Paraná em busca de uma nova moradia onde pudesse recomeçar sua família.
A Realidade do Município e os Desafios Enfrentados
O município onde a ocupação ocorreu é sob forte influência das elites latifundiárias, uma realidade que contrasta com a pobreza que afeta a maioria da população local. Dados do IBGE indicam que uma em cada treze pessoas vive em extrema pobreza, recebendo menos de R$218 por mês. A Secretaria da Saúde do município reconhece que a vulnerabilidade socioeconômica está diretamente ligada ao aumento de doenças crônicas, exigindo uma ação integrada entre saúde, assistência social e educação.
Com base no falido Estatuto da Terra, que afirma que a terra deve cumprir uma função social ou ser destinada à reforma agrária, os Xetá reivindicaram publicamente uma área destinada ao reflorestamento. Essa ocupação se tornou um símbolo de resistência à longa espera pela demarcação de seus direitos. No entanto, nas últimas semanas, surgiram indícios de tentativas de grilagem na nova terra indígena, ressaltando a importância da ocupação e a subserviência do Estado às classes dominantes.
Saúde Coletiva e Bem-Estar da Comunidade
Apesar das grandes esperanças geradas pela ocupação, os desafios enfrentados pelos Xetá são significativos. A saúde coletiva, especialmente das crianças, é uma preocupação central devido à precariedade da infraestrutura e à escassez de água potável. Essa situação exige um acompanhamento próximo por parte da equipe de saúde multidisciplinar, que, infelizmente, enfrenta barreiras devido ao status de ocupação do território, dificultando sua presença no local, o que configura uma violação ao direito à saúde indígena. Além disso, há uma necessidade urgente de energia para o armazenamento adequado de insulina e leite, essenciais para as crianças e pacientes diabéticos.
Apesar das dificuldades que acompanham a nova ocupação, a comunidade Xetá se mostra otimista. A conquista de seu território é um passo importante na realização de um sonho coletivo: reunir novamente o povo que, há tantos anos, vive em dispersão. “Em todos esses anos de luta, que nunca ninguém viu pela gente, para demarcar pelo menos um pedacinho de terra e dizer que ali é um território de Xetá, a gente ficou todo espalhado, sem saber notícia um do outro”, compartilha Julio, mencionando a dor causada pela recente perda de um ancião do povo. Ele lamenta a impossibilidade de prestar uma última homenagem, evidenciando a fragilidade econômica que os impede de honrar seus mortos.
