Um Exemplo de Coragem e Dedicação
Kaique Ayran, um curitibano de 31 anos e proprietário de uma pastelaria, é um verdadeiro exemplo de superação. Desde a infância, ele convive com hemofilia grave, uma condição que resulta em fatores de coagulação do sangue quase inexistentes, aumentando o risco de hemorragias. Apesar das previsões que apontavam para limitações físicas severas, ele surpreendeu a todos ao completar uma maratona aquática de 10 quilômetros em 3h20. Agora, o nadador está em busca de um lugar no Guinness World Records.
Na maratona realizada na Represa do Capivari, em Campina Grande do Sul (PR), Kaique não só obteve o primeiro lugar em sua categoria, mas também conquistou a sétima colocação geral. Este feito é ainda mais impressionante quando se considera que ele já enfrentou mais de 100 episódios de hemorragias no joelho direito, muitas vezes de forma espontânea. “A cada hemorragia, você sente a força na articulação diminuir consideravelmente. É um processo que demanda tempo para recuperar a mobilidade”, explica.
Kaique recorda que, durante sua infância, nunca teve a oportunidade de praticar esportes. “Sempre fui apaixonado por água e futebol, mas a hemofilia me impediu de jogar. Aprendi desde muito novo a lidar com uma doença sem cura e isso me fez amadurecer precocemente”, relata. Além do tratamento contínuo, que realiza no Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná (Hemepar), ele também passou por várias cirurgias corretivas ao longo da vida.
A Importância do Tratamento e a Luta Pessoal
O maratonista compartilha que, por mais de uma década, evitou discutir sua condição. Tentativas de encontrar emprego onde fosse honesto sobre a hemofilia resultaram em 15 reprovamentos. “Na 16ª seleção, omiti a informação e fui contratado. Prefiro que me vejam como Kaique, uma pessoa completa, sem deixar que a hemofilia defina quem sou”, afirma. Na escola, nunca deixou de frequentar as aulas e evitou atestados médicos, mesmo enfrentando as dificuldades da doença.
Com a compreensão de que cuidar do corpo é fundamental para uma melhor qualidade de vida, Kaique dedicou-se a se tornar um especialista em suas necessidades. “Existem questões que apenas você pode resolver”, enfatiza. Em 2011, sua vida passou por uma transformação significativa: o tratamento, antes apenas corretivo, se tornou profilático. Agora, ele realiza a reposição do fator de coagulação em casa, o que reduziu consideravelmente as hemorragias, de uma média a cada duas semanas para uma vez por mês.
O médico e secretário de Saúde do Paraná, Beto Preto, ressalta os avanços no tratamento: “Ele faz uso do fator recombinante VIII de coagulação, que se tornou mais puro com as boas práticas de fabricação. É gratificante ver como ele conseguiu viver normalmente”.
Quebrando o Silêncio e Inspirando Outros
Com a finalização da maratona aquática, Kaique decidiu romper o silêncio sobre sua condição. Em uma postagem em suas redes sociais, ele compartilhou sua história de superação, com o intuito de encorajar outros que enfrentam dificuldades. “Quis que minha mensagem alcançasse não só aqueles com hemofilia, mas todos que enfrentam desafios. A mente pode aumentar problemas pequenos se não estiver bem, mas também transforma o que parece impossível em possível”, ensina o maratonista.
Nos últimos cinco anos, ele teve sucesso em equilibrar sua rotina de trabalho e a prática da natação. Gradualmente, começou a intensificar seus treinos, até se sentir preparado para nadar em águas abertas. Em 2022, Kaique venceu sua primeira competição de 1,5 km e, a partir daí, ampliou suas distâncias, chegando a nadar 10 km em 2025. Ele continua a se dedicar ao treinamento, com um sonho grande em mente: ser reconhecido pelo Guinness e inspirar ainda mais pessoas através da sua história de superação.
