Diminuição nos Casos de Hanseníase
Nos últimos 11 anos, o Brasil viu uma queda de 29% no número de novos diagnósticos de hanseníase, conforme revelam dados do Sinan (Sistema de Informação de Agravos e Notificação) do Ministério da Saúde. O total de casos registrados passou de 31.064 em 2014 para 22.129 em 2024, de acordo com as últimas estatísticas disponíveis. Essa redução, que ocorre de maneira gradual, acelerou a partir de 2019, coincidentemente com o início da pandemia de Covid-19, conforme destacado em gráficos recentes.
A melhora nos números é atribuída a um reforço na atenção primária em regiões historicamente carentes de serviços de saúde, como aponta Larissa Bordalo, médica de família e comunidade e mestre em saúde da família pela UFMA (Universidade Federal do Maranhão). Ela ressalta, no entanto, que os dados podem conter alguma subnotificação devido às complicações geradas pela pandemia, mas demonstra que a tendência é positiva e deve continuar.
Contexto Global e Conscientização
Apesar da redução, o Brasil ainda ocupa a segunda posição mundial em casos absolutos de hanseníase, sendo superado apenas pela Índia. A doença, que foi estigmatizada como lepra por muitos anos, é uma das enfermidades mais antigas registradas, com seu primeiro relato datando de 1873. No último domingo (25), foi celebrado o Dia Mundial Contra a Hanseníase, uma data dedicada à conscientização sobre a importância de combater essa enfermidade, classificada como “negligenciada” por muitos especialistas.
Arthur Fernandes, médico de família e responsável pela residência em medicina de família e comunidade da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, comentou a atual situação: “Embora a hanseníase esteja em queda, ela é frequentemente menos priorizada nos planejamentos de saúde, inclusive no Brasil”. Fernandes destaca que, apesar de o SUS (Sistema Único de Saúde) disponibilizar tratamento e medicação, doenças com maior gravidade normalmente recebem mais atenção, mesmo que a hanseníase possa causar sérios danos à mobilidade.
Estatísticas e Metas do Ministério da Saúde
Dados do Ministério da Saúde indicam que no ano passado, aproximadamente 20.600 casos de hanseníase foram registrados, embora esses números sejam preliminares. A pasta informou a distribuição de 3,4 milhões de medicamentos, incluindo mais de 390 mil esquemas de poliquimioterapia. Há uma meta ambiciosa de alcançar 87% dos municípios brasileiros sem novos casos autóctones em menores de 15 anos por pelo menos cinco anos consecutivos, alinhada à estratégia global proposta pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Atualmente, 80,6% dos municípios já atingem esse índice.
Redução de Casos em Crianças e Desafios Persistentes
As estatísticas também revelam uma diminuição mais acentuada entre crianças e adolescentes. Na faixa etária de 0 a 4 anos, a redução atingiu impressionantes 80%, passando de 170 para 34 casos entre 2014 e 2024. Entre crianças de 5 a 9 anos, a queda foi de 58%, enquanto entre adolescentes de 10 a 14 anos, a diminuição alcançou cerca de 62%. A única faixa etária que apresentou um aumento foi a de pessoas com mais de 80 anos, que registrou uma elevação de aproximadamente 4,5%, embora essa variação indique estabilidade ao longo dos anos.
Apesar do panorama positivo, os especialistas alertam que avanços ainda são necessários no combate à hanseníase, que continua endêmica em algumas regiões do país. Larissa Bordalo exemplifica: “Temos áreas como o Maranhão, onde, desde 2013, com o programa Mais Médicos, comunidades antes desassistidas passaram a ter acesso a equipes de atenção primária. A avaliação clínica e o acompanhamento da medicação são fundamentais para o êxito no combate à hanseníase”.
Desafios de Diagnóstico e Novas Pesquisas
A hanseníase é mais prevalente em áreas com vulnerabilidade social, afetando em maior número homens, pessoas com baixa escolaridade e de baixa renda, conforme dados do Ministério da Saúde. Atualmente, a Fundação Oswaldo Cruz está realizando testes para a primeira vacina contra a hanseníase do mundo, desenvolvida pelo Acess to Advanced Health Institute (AAHI), um instituto de biotecnologia dos Estados Unidos. Caso os resultados sejam favoráveis, a vacina pode ser incorporada ao Plano Nacional de Imunização, fortalecendo ainda mais o combate à doença.
A condição é causada pela bactéria Mycobacterium leprae e afeta principalmente a pele, nervos periféricos, olhos e vias aéreas superiores. A transmissão ocorre, geralmente, pelo contato próximo e prolongado com uma pessoa doente que não está em tratamento, principalmente por meio de gotículas eliminadas ao falar, tossir ou espirrar. Contrariando alguns mitos, a hanseníase não é facilmente transmissível e não se espalha por gestos comuns como apertos de mão ou abraços.
O desafio do diagnóstico precoce se torna evidente, uma vez que os sintomas podem ser sutis. “As pessoas geralmente não associam uma pequena mancha à hanseníase”, observa Fernandes. Portanto, uma identificação rápida é crucial para evitar danos e interromper a transmissão. Uma vez diagnosticada, a pessoa contaminada é removida do que especialistas chamam de ciclo de infecção, podendo assim impedir que continue a transmitir a doença.
