Marçal e a Nova Frente de Consultoria Política
Documentos obtidos pelo GLOBO e pela rádio CBN revelam que Sabará, ex-assessor de Marçal, estabeleceu duas empresas de publicidade e treinamento em 2023. Dentre elas, destaca-se a Unipoli, abreviatura de “Universidade Política”, que oferece cursos online a um valor de R$ 496. Segundo a plataforma, “infelizmente, esse assunto não é abordado de maneira adequada nas escolas, e quando é, frequentemente ocorre de forma ideológica”.
A proposta, que inicialmente focava em cursos de curta duração, foi apresentada em um evento realizado em Alphaville, em novembro do ano passado, intitulado “Como destravar o Brasil”. A reportagem apurou que a consultoria é uma nova vertente do negócio chamada “Máquina de votos”, que exibe um logotipo estilizado com a letra “M” e tem como alvo a “ação digital”. Embora Sabará não tenha revelado os clientes, afirma que a lista inclui aspirantes a cargos de deputado e também ao Executivo.
Na palestra do evento, Marçal declarou: “Deixa eu falar uma coisa, eu não estou esperando ninguém fazer nada. Eu já estou levantando um batalhão há um tempo. Essa eleição será nossa, vamos dominar o parlamento. Vou liberar várias novidades na próxima eleição, faremos festividades em todo o Brasil. Em estados sem prefeitos do PT, faremos um grande evento.”
Até o momento, a conta do Instagram do novo negócio, que conta com apenas 25 seguidores, inclui nomes como o ex-deputado estadual Frederico D’Ávila (PL-SP), um político com bom trânsito no agronegócio paulista. Ele confirmou as tratativas em andamento e aguarda o envio da proposta. D’Ávila, que tentou uma vaga na Câmara há quatro anos e enfrenta repercussões negativas por ofensas ao Papa Francisco, não foi eleito. Outras figuras ligadas ao PP de São Paulo também estão na lista, mas o presidente estadual do partido, deputado federal Maurício Neves, não se manifestou sobre seu envolvimento.
Controvérsias e Acusações Durante a Campanha
Ex-candidato à prefeitura de São Paulo em 2024, Marçal tornou-se uma figura polêmica ao longo da campanha. Ele acusou o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL) de uso de substâncias ilícitas, sem apresentar provas, e lançou um laudo falso em um momento crucial do primeiro turno. Além disso, gerou conflitos durante os debates e chegou a ser agredido por José Luiz Datena (PSDB).
Marçal justificou suas ações como uma forma de ganhar visibilidade em uma disputa em que dispunha de menos recursos do que seus concorrentes do pequeno PRTB. Ao final, acabou derrotado em uma apertada terceira colocação. Sua trajetória culminou em condenação à inelegibilidade em primeira e segunda instâncias, devido a atividades irregulares nas redes sociais, como “campeonatos de cortes” na plataforma Discord, que prometiam ganhos financeiros e viralização de conteúdo. Ele anunciou que irá recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Além de Sabará e Marçal, outros profissionais mencionados no curso incluem Rodrigo Kherlakian, que se apresenta como empreendedor e filósofo estoico, e Daniel Gonzales, que promove técnicas de neurociência nas escolas e possui uma página de extrema direita no Twitter. Contudo, apenas Sabará é listado como sócio-administrador da empresa. A assessoria de Marçal confirmou que ele está envolvido na comercialização dos cursos.
O Papel dos Influenciadores nas Eleições
Especialistas em Direito Eleitoral asseguram que influenciadores podem atuar nas eleições, oferecendo serviços de consultoria política e marketing, desde que não cobrem por divulgação em suas plataformas ou recebam benefícios em troca de apoio. Assim, tanto Sabará quanto Marçal estão aptos a oferecer consultoria para as eleições de 2026, desde que não façam propaganda comercial dos candidatos envolvidos.
Desconfiança Entre Aliados Políticos
A tentativa de Sabará de influenciar a campanha de Flávio Bolsonaro tem gerado desconforto entre os aliados do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Em 2024, Marçal foi um concorrente direto de Ricardo Nunes, que contava com o apoio formal do ex-presidente Jair Bolsonaro e do governador paulista.
Durante a campanha, Marçal buscou se posicionar como representante legítimo da direita, buscando deslocar Nunes. Em um tom provocativo, ele chegou a dizer: “Em 100% das vezes que mencionarem meu nome, devolverei a energia. Se ele me chamar de derretendo, irei chamá-lo de goiabinha.”
Em dezembro do ano passado, Flávio acionou a todos ao aparecer em um evento de Marçal, onde recebeu seu apoio. Essa aproximação levanta dúvidas sobre a possibilidade de Tarcísio compartilhar um palanque ao lado de Marçal, assim como ocorreu com o prefeito de São Paulo.
“Vamos apoiar Flávio Bolsonaro para a presidência do Brasil. Chega de PT, chega de Lula. Ele é o Bolsonaro que sempre sonhamos”, declarou Marçal durante o evento. Além disso, Sabará também buscou se reunir com o governador de São Paulo em janeiro, como emissário de Flávio, solicitando que ele expressasse apoio explícito a Flávio nas redes sociais e ajudasse na articulação política. Reportagens indicam que o governador respondeu que a campanha ainda não havia começado, prometendo apoio no momento oportuno.
Um aliado de Tarcísio, que preferiu não se identificar, comentou que Flávio parece estar ampliando sua influência, com a expectativa de restringi-la posteriormente, acreditando que a presença de Sabará na campanha não será tão marcante. Antes de se vincular a Marçal, Sabará foi secretário de Assistência Social na Prefeitura de São Paulo durante a gestão de João Doria e já tentou, sem sucesso, concorrer à prefeitura pelo partido Novo em 2020.
