Crise Hídrica: Uma Questão Estrutural no Paraná
A crise hídrica que afeta diversas cidades do Paraná, como Piraquara e Guaratuba, deixou de ser um mero acidente isolado ou uma falha técnica. O que se observa é um problema estrutural, enraizado em um modelo de gestão pública que não consegue atender às necessidades básicas da população. Essa crítica foi levantada pelo PCdoB no Paraná, que aponta a situação como uma consequência direta de escolhas políticas que priorizam a lógica de mercado em detrimento da função social das empresas públicas.
A Sanepar, companhia responsável pelo abastecimento de água, não foi formalmente privatizada, mas passou por um processo de financeirização. Isso significa que a empresa, embora ainda pública, tem operado em consonância com interesses financeiros que visam maximizar lucros em vez de garantir a água como um direito básico. A consequência direta disso é o aumento constante das tarifas, enquanto a qualidade do serviço vem se deteriorando, especialmente em momentos críticos em que a população mais precisa.
Em Piraquara, a situação torna-se ainda mais grave. O município, que abriga mais de 90% de seu território protegido por lei para preservar os mananciais que abastecem a Região Metropolitana de Curitiba, enfrenta limitações para seu desenvolvimento econômico. Apesar de sua importância, a compensação financeira recebida por Piraquara ao longo dos anos foi insuficiente, conforme apontou uma investigação do Ministério Público. A Justiça determinou um valor significativo, cerca de 800 milhões de reais, mas esses recursos permanecem congelados, impossibilitando investimentos em infraestrutura e proteção ambiental.
Paradoxalmente, o território que fornece água se vê fragilizado, e o município que produz essa água é um dos primeiros a sofrer com a escassez. A crise, portanto, transcende a falta de água, refletindo um problema político e institucional. Denúncias sérias surgiram, impulsionadas por áudios divulgados pelo deputado Requião Filho. Essas gravações revelam possíveis esquemas ilegais envolvendo a Sanepar e o governo estadual, levando a solicitações de investigação junto a órgãos como a Polícia Federal e o Ministério Público.
Discrepância entre Realidade e Propaganda
Frente a esse cenário alarmante, a discrepância entre a propaganda institucional e a realidade vivida pela população se torna inaceitável. A promessa de investimentos e modernização não se concretiza no dia a dia dos cidadãos. Quando a comunicação institucional não se alinha com as vivências reais da população, o problema vai além de uma simples falha de marketing; é um reflexo de um projeto que não atende ao interesse público.
A falta de água no Paraná não é um fenômeno isolado, mas uma consequência direta das decisões políticas tomadas ao longo dos governos de Ratinho Júnior. A escolha de submeter empresas públicas à lógica de mercado compromete a sua função social. Enquanto a população carece de água, a ênfase é colocada em espetáculos e campanhas publicitárias, revelando um modelo que prioriza a imagem em detrimento de um direito fundamental.
Essa realidade pode ser comparada a outros contextos internacionais. Em países como a China, a presença de empresas privadas não significa que o Estado perca o controle sobre setores estratégicos. Aqui, ao contrário, o interesse público parece sucumbir diante das exigências do mercado.
O Partido Comunista do Brasil reforça que o papel das empresas públicas é garantir direitos, não gerar lucro ou servir a interesses financeiros. A água não deve ser tratada como uma mercadoria; é um direito, um elemento de soberania e dignidade.
Um Chamado à Ação e à Transparência
Quando cidades tão diversas como Piraquara e Guaratuba enfrentam a mesma crise, fica claro que a raiz do problema é estrutural e não local. A solução requer um enfrentamento rigoroso a este modelo, promovendo a transparência, investigações apropriadas e um planejamento público eficaz. O Paraná não necessita de mais marketing; precisa que a água chegue às torneiras, que haja respeito pela população e um projeto de Estado que coloque o bem coletivo acima das demandas do mercado. Sem justiça territorial, não há segurança hídrica. Sem um controle público efetivo, não se pode falar em empresa pública de verdade. A mudança de rota é urgente para evitar que a crise se perpetue.
*Ângelo Stroparo é presidente estadual do PCdoB no Paraná.*
