Renúncia de Santiago Peña diante da crise bancária e pressão política
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), em meio a uma grave crise bancária que abalou o país. A decisão ocorre após o aumento da pressão política, com um processo de impeachment que reunia apoio tanto da oposição quanto de membros da base governista, deixando Peña politicamente isolado. A crise teve como epicentro a falência do banco digital Ueno, instituição na qual Peña foi acionista e que bloqueou o acesso de milhares de correntistas aos seus recursos.
Em vídeo divulgado à população, Peña pediu desculpas aos clientes afetados e afirmou que a renúncia foi motivada pela necessidade de preservar a estabilidade nacional, a paz social e as instituições democráticas. “Nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai”, declarou. Ele também reconheceu que, se houve falhas, estas não foram intencionais e pediu perdão à população.
Pressão política acelera processo de impeachment
Na manhã do mesmo dia, o Congresso paraguaio iniciou uma sessão extraordinária para discutir o pedido de impeachment contra Peña, que contava com o apoio unânime das bancadas da Câmara dos Deputados. A iniciativa ganhou força após o presidente do Partido Colorado, Horacio Cortes, retirar seu apoio ao governo, o que enfraqueceu ainda mais o presidente, que já enfrentava questionamentos dentro do próprio partido.
O vice-presidente Pedro Alliana, também alvo do processo de impeachment, assumirá o comando do país. Apesar disso, a Câmara rejeitou o pedido de afastamento contra Alliana, mantendo-o na linha sucessória.
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Contexto da crise e acusações contra Peña
Economista de formação e conservador, Peña assumiu a presidência do Paraguai em 2023, com mandato previsto até 2028. Ele mantinha relações políticas relevantes, incluindo alinhamento com o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e participação no Escudo das Américas, grupo de países ideologicamente alinhados. Também cultivava uma boa relação com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
A oposição acusa Peña de conflito de interesses, manipulação das regras e desvio de recursos previdenciários, além de alegar conivência com irregularidades no banco central que teriam encoberto problemas no Ueno. A deputada Rocío Vallejo, da oposição, afirmou que nunca antes um presidente havia prejudicado 3 milhões de pessoas em um único dia, referindo-se à quebra do banco digital.
Peña foi acionista do grupo controlador do Ueno até março do ano anterior. O banco digital possuía cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo fundos do Instituto de Previdência Social. A liquidação do banco foi iniciada pelo banco central paraguaio após identificar insuficiência de recursos para cumprir suas obrigações, especialmente relacionadas a empréstimos para empresas ligadas à própria instituição.
Consequências imediatas e resposta institucional
Após o anúncio da liquidação, executivos do Ueno foram presos, e 27 pessoas ligadas ao banco foram formalmente acusadas pela Procuradoria. A Justiça ordenou o bloqueio dos bens dos envolvidos nas irregularidades. Em paralelo, relatos de falhas em aplicativos de outras instituições financeiras emergiram, gerando apreensão sobre a estabilidade do sistema bancário.
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A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) afirmou que, apesar da crise, as demais instituições estavam operando normalmente e atuavam para atender o aumento da demanda de clientes migrando do Ueno para outras instituições.
Peña também promulgou uma lei que visa acelerar a recuperação dos depósitos pelos clientes do banco digital, reforçando o compromisso de que os responsáveis pelas irregularidades serão responsabilizados judicialmente. Ele pediu que os setores políticos priorizem o interesse dos poupadores acima de qualquer disputa.
Próximos passos na transição política
Com a renúncia de Peña, o Paraguai inicia um novo capítulo político sob a liderança do vice-presidente Pedro Alliana, cuja permanência no cargo ainda enfrenta questionamentos. A crise bancária expôs fragilidades institucionais e gerou uma disputa interna no Partido Colorado, que terá impacto direto na estabilidade política e econômica do país nos próximos meses.
O cenário permanece tenso, com a necessidade de fortalecer a confiança no sistema financeiro e garantir a governabilidade diante das demandas sociais e políticas geradas pelo episódio.
