Produção de seda no Paraná enfrenta desafios climáticos e sociais
O Paraná concentra cerca de 85% da produção nacional de seda e lidera a América Latina na produção de casulos do bicho-da-seda. Mesmo com essa posição de destaque, a sericicultura paranaense enfrenta desafios significativos, como os impactos das mudanças climáticas, a escassez de mão de obra e a deriva de agrotóxicos sobre as plantações de amoreira. Essa cadeia produtiva, desenvolvida majoritariamente por agricultores familiares, movimentou R$ 34,57 milhões em Valor Bruto da Produção (VBP) em 2025, conforme dados do Departamento de Economia Rural (Deral), vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab).
Redução do número de produtores e dificuldades ambientais
Atualmente, 137 dos 399 municípios paranaenses estão envolvidos na cadeia produtiva da seda. A qualidade da seda produzida no Estado é reconhecida internacionalmente, sendo exportada para países como França, China, Índia, Itália e Japão, onde abastece a indústria têxtil e o mercado de luxo. Entretanto, a sericicultura no Paraná sofreu uma expressiva redução no número de produtores: de aproximadamente 5 mil para 1,2 mil sericicultores.
Oswaldo da Silva Pádua, assessor estadual do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) e responsável pela área de sericicultura, destaca que essa queda é consequência de fatores ambientais, produtivos e sociais. Entre os principais problemas estão a deriva de defensivos agrícolas, pulverizações inadequadas, operações com aviação agrícola e variações climáticas que prejudicam as amoreiras e comprometem a produção dos casulos. Estima-se que cerca de 85% das famílias que já atuaram na atividade tenham abandonado o setor, tornando fundamental recuperar esses produtores e atrair novas famílias para a cadeia estadual da seda.
Impacto das temperaturas elevadas na sericicultura
As alterações climáticas representam um dos maiores desafios para os próximos ciclos produtivos. Temperaturas elevadas afetam tanto o crescimento das amoreiras quanto o desenvolvimento das lagartas criadas nos barracões. Como as folhas frescas da amoreira são o único alimento do bicho-da-seda (Bombyx mori), qualquer perda na qualidade das folhas, redução no crescimento das plantas ou contaminação pode impactar diretamente a produtividade e a qualidade dos casulos.
A expectativa de temperaturas mais altas, agravada pelo fenômeno El Niño, reforça a necessidade de adaptação das propriedades rurais. Pádua explica que novas tecnologias serão essenciais para garantir o desenvolvimento adequado das amoreiras e preservar a alimentação das lagartas. Nos ambientes de criação, a faixa ideal de temperatura varia entre 22°C e 26°C; acima disso, o risco de estresse térmico aumenta, reduzindo a qualidade da matéria-prima e o desempenho na produção.
Investimentos em irrigação e climatização para adaptação
Para mitigar os efeitos do clima, associações de produtores, universidades, pesquisadores, indústrias, instituições financeiras e órgãos públicos trabalham juntos para implementar soluções tecnológicas e capacitar os sericicultores. No Noroeste do Paraná, dez propriedades foram selecionadas como Unidades de Referência, que receberão tecnologias como irrigação em um hectare de amoreira, estações de monitoramento climático e sistemas de climatização para os barracões onde as lagartas são criadas.
O projeto está previsto para se expandir às regiões Centro-Sul e Norte Pioneiro, que têm ampliado sua participação na atividade. Nessas áreas, outras dez Unidades de Referência deverão ser instaladas. Eduardo Venicio Libanori, técnico do IDR-Paraná, ressalta que o controle da temperatura nos barracões será decisivo para manter a produtividade frente ao aumento do calor. Além disso, essas unidades funcionarão como vitrines tecnológicas, permitindo que outros produtores observem os resultados e avaliem a adoção dessas soluções em suas propriedades.
Leia também: Greca e o Futuro do Agronegócio: Candidatura ao Governo do Paraná em Debate
Leia também: Milho ardido no Oeste do Paraná: excesso de chuva e geada impactam colheita e qualidade
Sericicultura como fonte de renda para a agricultura familiar
A produção de seda tem forte presença da agricultura familiar e pode gerar renda significativa em pequenas áreas. Uma caixa de criação abriga cerca de 40 mil lagartas e produz, em média, entre 70 e 80 quilos de casulos. Considerando preços entre R$ 40 e R$ 42 por quilo, uma caixa pode proporcionar receita bruta aproximada de R$ 2,8 mil a R$ 3,3 mil, dependendo da produtividade e do valor recebido pelo produtor.
Além do retorno financeiro, a sericicultura é uma atividade de baixo impacto ambiental. Exige cuidados diários e a oferta constante de folhas, podendo ser integrada a pequenas propriedades para diversificar a renda rural. A extensão rural desempenha papel estratégico ao oferecer assistência técnica que ajuda os produtores a melhorar o manejo das amoreiras, controlar as condições dos barracões, aumentar a produtividade e reduzir perdas durante os ciclos de criação.
Ciclo produtivo e tradição no Paraná
O ciclo produtivo do bicho-da-seda dura cerca de 28 dias, durante os quais as lagartas passam por diferentes fases e se alimentam exclusivamente de folhas frescas de amoreira. No estágio final, o consumo de folhas aumenta consideravelmente, exigindo alimentação constante, inclusive durante a noite. Após atingir o desenvolvimento adequado, as lagartas sobem em estruturas chamadas bosques ou montadeiras para iniciar a formação dos casulos.
Cada casulo pode fornecer até mil metros de fio contínuo, e para obter um quilo de seda bruta são necessários aproximadamente cinco quilos de casulos. A sericicultura tem tradição consolidada no Noroeste do Paraná, região que chegou a concentrar cerca de 60% da produção estadual. Nova Esperança, localizada nessa área, é oficialmente reconhecida como a Capital Nacional da Seda.
Expansão da produção e estrutura industrial no Estado
Em 2025, Diamante do Sul assumiu a liderança estadual na produção de casulos, ultrapassando Nova Esperança, que ficou em segundo lugar, seguida por Cândido de Abreu. Esse avanço mostra a expansão da atividade para outras regiões, como o Centro-Sul e o Norte Pioneiro, justificando a ampliação dos projetos de assistência técnica, irrigação, monitoramento climático e climatização.
A indústria paranaense também é robusta, com estrutura para selecionar, secar, processar e transformar casulos em fios destinados ao mercado internacional. Após deixarem as propriedades, os casulos são classificados em categorias como Premium Extra, Premium Bom, Premium e Kaiten. Na secagem, equipamentos controlam a umidade para preservar as características do fio, enquanto painéis de luz identificam anomalias internas.
Os casulos passam ainda por cozimento entre 60°C e 70°C, processo que facilita a liberação do fio e garante a firmeza e uniformidade da seda. Os subprodutos, como a anafaia e as crisálidas, são aproveitados na fabricação de tecidos, cortinas, almofadas e até na alimentação animal ou consumo humano em mercados específicos.
Leia também: Colheita de Amendoim Conquista Espaço no Farming Simulator 25 com Máquinas Brasileiras da Colombo
Leia também: Soja em Guarapuava: Crescimento, Tecnologia e Impacto Econômico no Agronegócio
Seda paranaense nas passarelas internacionais
A qualidade do fio produzido no Paraná abastece marcas internacionais de luxo, incluindo as francesas Hermès e Chanel, que utilizam a seda em lenços, roupas e coleções de alta-costura. Desde 2006, toda a seda usada mundialmente pela Hermès tem origem no Paraná.
Londrina, no Norte do Estado, abriga a Fiação de Seda Bratac, considerada a única fábrica de fio de seda em escala industrial do Ocidente e a primeira empresa brasileira do setor a obter certificação orgânica têxtil. Em 2014, a unidade produziu 432,5 toneladas de fio, das quais 54,7% foram exportadas para a Europa e 45,2% para a Ásia.
Plano de desenvolvimento e sustentabilidade para a sericicultura
O Paraná está elaborando um plano de desenvolvimento e sustentabilidade da sericicultura para a próxima década. Organizada pela Câmara Técnica da Seda, a estratégia envolve instituições de pesquisa, universidades, órgãos de extensão rural, indústrias, agentes financeiros, associações de sericicultores e a Associação Brasileira de Fiações de Seda (Abraseda).
Marcelo Garrido, chefe do Deral, destaca que a sericicultura integra os projetos estratégicos do IDR-Paraná para melhorar a renda dos agricultores familiares, aumentar a produção, elevar a produtividade e promover a sustentabilidade ambiental. O plano visa combinar assistência técnica, pesquisa, irrigação, climatização, monitoramento climático e inovação para ajudar os produtores a superar os desafios ambientais e recuperar famílias que deixaram a atividade, além de incentivar a sucessão rural e garantir matéria-prima para a indústria estadual.
Tecnologia e tradição: pilares para manter liderança nacional
A criação do bicho-da-seda tem origem milenar, com início na China há mais de cinco mil anos, dando nome à histórica Rota da Seda, que conectava Oriente e Ocidente. No Brasil, a atividade começou no Rio de Janeiro em 1848. Em 1922, a fundação da Indústria de Seda Nacional S.A., em Campinas (SP), consolidou a sericicultura na agroindústria nacional.
Hoje, a produção está concentrada principalmente no Paraná, especialmente no Vale da Seda, e em regiões do interior de São Paulo. Para preservar essa tradição e manter a liderança no país, o Paraná precisa avançar na adaptação climática e modernização das propriedades. Controlar a temperatura dos barracões, proteger as amoreiras e reduzir os impactos da deriva de agrotóxicos serão decisivos para o futuro da sericicultura.
Com tecnologia, organização da cadeia produtiva e fortalecimento da agricultura familiar, o Estado busca ampliar a competitividade da seda paranaense e expandir sua presença nos mercados de maior valor agregado.
