Caetano Veloso abre as portas do Cine Lido em Curitiba
Na noite desta quarta-feira (26), o Cine Lido, antigo cinema de rua da capital paranaense, ganhou uma nova vida como casa de espetáculos com a apresentação de Caetano Veloso. A revitalização do imóvel trouxe um espaço que promete dinamizar a agenda cultural de Curitiba, tendo sua estreia marcada por um show que mesclou clássicos, composições recentes e homenagens a nomes centrais da música brasileira.
Embora o show estivesse previsto para começar às 22h, um atraso de uma hora ocorreu devido a ajustes finais na estrutura do local. Caetano aguardou pacientemente para subir ao palco e conduzir o público por uma trajetória musical que se estende por cerca de seis décadas. A espera não esfriou o entusiasmo da plateia, que foi recebida pela serenidade característica do artista baiano.
Repertório que dialoga com diferentes públicos
O espetáculo de estreia não buscou a complexidade conceitual de produções anteriores, nem tampouco o formato familiar da última turnê com Maria Bethânia. Em vez disso, Caetano apresentou um repertório flexível e acessível, capaz de alcançar públicos variados, característica importante para a casa que almeja integrar-se de forma significativa à vida cultural local.
O show começou com “Branquinha”, faixa do álbum Estrangeiro (1989), conduzida pela cadência do samba-reggae. A escolha da música funcionou como uma apresentação pessoal e estabeleceu o tom autoral predominante na noite. Durante o espetáculo, o cantor prestou homenagens a artistas como Maria Bethânia e Gal Costa. Em “Vaca Profana”, composição escrita por Caetano e eternizada na voz de Gal Costa no álbum Profana (1984), a interpretação ganhou uma abordagem roqueira, que também esteve presente na execução de “Divino Maravilhoso”, outra canção associada aos festivais e à intensidade do canto de Gal.
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Após uma mudança de ritmo, com a malemolência de “Cajuína” que animou o público, Caetano trouxe “Podres Poderes”, música que mantém sua crítica social e política mesmo décadas depois, reforçando sua atualidade. O apoio da banda, sob a direção de Lucas Nunes, foi fundamental para construir uma sonoridade que transitou entre momentos roqueiros, passagens percussivas e arranjos delicados, respeitando a diversidade da obra do cantor.
Novas composições ganham espaço no palco
Apesar do foco em músicas consagradas, o show também incluiu composições recentes. “Anjos Tronchos”, do álbum Meu Coco, trouxe uma reflexão sobre tecnologia, isolamento e mudanças no comportamento humano, com uma instrumentação hipnótica. “Um Baiana”, samba-reggae de 2025, reforçou a conexão de Caetano com os ritmos da Bahia, homenageando o grupo BaianaSystem. A inserção dessas músicas ocorreu de forma natural, sem destoar do restante do repertório.
Os metais tiveram destaque em “Eclipse Oculto”, enquanto “Cajuína” ganhou um desenho percussivo que ampliou a força de seus versos. “Muito Romântico” apresentou um arranjo vocal inspirado em formações corais, um dos pontos mais elaborados da noite. A presença do samba foi reafirmada em “Que O Samba é Samba”, aproximando o espetáculo das rodas de samba e evidenciando a diversidade musical do compositor.
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Clássicos e momentos de celebração
Consciente do significado da estreia, Caetano distribuiu no repertório canções famosas que criaram uma comunicação direta com o público. “Gente”, “Alegria, Alegria”, “Queixa”, “Reconvexo”, “Não Enche” e “Odara” foram recebidas com entusiasmo e coros. “Sozinho”, composição de Peninha incorporada à discografia do baiano nos anos 1990, destacou-se como momento de identificação profunda com a plateia.
A reta final do show ganhou clima carnavalesco com “É Hoje”, samba-enredo da União da Ilha do Governador de 1982, que já havia sido popularizado por Fernanda Abreu em 1995. A música transformou o espaço em uma festa coletiva, com o público dançando e acompanhando a banda.
Ao inaugurar o Cine Lido, Caetano Veloso reforçou sua trajetória marcada pela renovação constante. A estreia do espaço cultural, sem contratempos significativos, indica que o local tem potencial para se firmar como ponto importante na cena cultural de Curitiba, oferecendo uma nova alternativa para a circulação artística e encontros culturais na cidade.
