Contexto e memória política no Paraná
O deputado federal Tadeu Veneri (PT-PR) enfatizou a necessidade urgente de a esquerda brasileira recuperar sua capacidade de formação política e reconstruir a memória das lutas populares para além das disputas eleitorais. A análise é especialmente relevante para o Paraná, segundo ele, devido a características históricas, econômicas e políticas que favoreceram a ascensão da extrema direita no estado nas últimas décadas.
Durante entrevista ao programa Horta da Verdade, na TV 247, Veneri traçou um panorama da política paranaense, destacando a persistência da influência do bolsonarismo no Sul do país, o impacto da Operação Lava Jato e a educação como campo estratégico para os próximos embates políticos.
Raízes históricas e identitárias do fenômeno político
Para compreender o atual cenário, o deputado considera essencial revisitar a formação histórica do Paraná. Ele aponta os fluxos migratórios europeus, o desenvolvimento tardio da identidade paranaense e o protagonismo do setor agrícola como elementos que moldaram as características políticas locais.
Veneri alerta que essa análise não deve ser interpretada como uma atribuição automática de posições à extrema direita para os descendentes desses grupos. O que ele identifica é a construção de identidades locais que, em alguns setores, valorizam a ascendência europeia enquanto excluem simbolicamente negros, indígenas, caboclos e migrantes de outras regiões, criando terreno para manifestações xenófobas e, posteriormente, o fortalecimento político do bolsonarismo.
A influência do agronegócio e sua relação com a extrema direita
Outro ponto central da entrevista foi o papel do agronegócio, que Veneri relaciona diretamente ao avanço dos movimentos conservadores e da extrema direita. Ele traça um corredor político que se estende do Sul do país até estados da Região Norte, como Rondônia e Roraima, destacando a expansão territorial do setor.
O deputado criticou os subsídios e benefícios concedidos ao agronegócio pelo Estado, ressaltando que o setor depende de crédito subsidiado e tem sido tolerante com práticas como a grilagem de terras e a devastação ambiental. Embora não generalize a crítica a todos os produtores rurais, ele responsabiliza as organizações que representam o segmento por essas condutas.
Lava Jato, Sérgio Moro e impactos políticos
A Operação Lava Jato e a figura do senador Sérgio Moro (União Brasil-PR) também foram temas aprofundados. Veneri classificou Moro como um mito politicamente construído, cuja projeção nacional foi favorecida por setores da mídia e interesses políticos que reorganizaram parte da direita brasileira.
O deputado resgatou a Operação Agro-Fantasma, que antecedeu a Lava Jato e atingiu pequenos produtores rurais no Paraná, usando o caso para exemplificar métodos que se ampliariam na operação posterior. Ele acusou a Lava Jato de atuar politicamente para impedir a candidatura de Lula e causar danos a grandes empresas brasileiras de engenharia e construção.
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Fonte: bahnoticias.com.br
Paraná não é um estado conservador, diz Veneri
Apesar do crescimento eleitoral da direita e extrema direita, o deputado rejeitou a ideia de que o Paraná seja um estado conservador por natureza. Ele atribui o fenômeno à falta de memória das lutas históricas locais, citando episódios pouco conhecidos como a Guerra do Contestado, a revolta dos colonos de 1957 e a Guerrilha de Porecatu.
Segundo Veneri, a esquerda enfrenta o desafio de transformar essa história em memória política contemporânea, construindo uma narrativa que valorize as mobilizações populares e os movimentos de trabalhadores como parte da identidade paranaense.
Educação e a disputa ideológica nas escolas
A educação aparece como um campo decisivo na disputa política. Veneri criticou o modelo das escolas cívico-militares implantado no Paraná, destacando que a militarização e a privatização alteram profundamente a concepção da escola pública. Ele diferencia os colégios militares das Forças Armadas das escolas cívico-militares estaduais, argumentando que a presença de militares como monitores não melhora as condições de ensino nem favorece a formação crítica dos estudantes.
O parlamentar acusa o governo estadual de transferir a gestão educacional para o setor privado, configurando a mercantilização da educação. Para ele, a escola deve promover o debate plural da história, estimular a participação política e ensinar o funcionamento da democracia.
Esquerda precisa retomar a formação política
Questionado sobre como a esquerda pode enfrentar a extrema direita e melhorar seu desempenho eleitoral, Veneri destacou a necessidade de retomar o estudo e a produção teórica. Ele identificou um enfraquecimento da tradição de formação política e debate sobre modelos alternativos dentro da esquerda e do movimento sindical.
O deputado ressaltou que essa lacuna é agravada pela rápida circulação de informações falsas, fragmentação das redes sociais e perda de referências tradicionais de conhecimento. Defende que partidos, sindicatos e movimentos sociais voltem a discutir temas como história, capitalismo, socialismo, direitos trabalhistas e organização social, sem abandonar seus princípios por medo de perder votos.
Autocrítica sobre a concentração da esquerda nas eleições
Veneri também fez uma autocrítica ao campo progressista, apontando que os partidos passaram a priorizar excessivamente a conquista de mandatos em detrimento da organização social permanente. Ele frisou que eleições são momentos voláteis e passageiros, e que sem construção política de longo prazo os resultados são frágeis.
O deputado criticou a crescente influência das emendas parlamentares no Orçamento da União, que fragmentam recursos e fortalecem estruturas políticas locais dependentes desses repasses, consolidando grupos regionais independentes das grandes discussões nacionais.
Perspectivas para as eleições de 2026 e horizonte de longo prazo
Sobre as eleições de 2026, Veneri evitou previsões definitivas, mas acredita em melhora do desempenho progressista. Ele destacou a eleição de Gleisi Hoffmann ao Senado como exemplo da competitividade da esquerda no Paraná. Contudo, reforçou que vitórias isoladas não substituem a construção de uma base social sólida e permanente.
O deputado defende que a esquerda pense em um horizonte de dez a vinte anos, atuando em escolas, sindicatos, bairros, organizações populares, redes sociais e espaços culturais, além da presença institucional e eleitoral.
Lulismo, petismo e o desafio do antipetismo
Veneri destacou a liderança de Lula, diferenciando o lulismo do petismo, e reconheceu sua capacidade de comunicação popular para além das fronteiras partidárias. Colocou Lula entre as principais lideranças populares da história do Brasil, ao lado de Leonel Brizola e Luiz Carlos Prestes.
Ao mesmo tempo, apontou que a força eleitoral de Lula gera uma reação organizada da oposição, onde antipetismo e antilulismo se unem especialmente em segundo turno, agregando diversos setores da direita contra o presidente e o PT.
Transformação do sistema político e enfraquecimento da direita liberal
O deputado observou uma mudança estrutural no sistema político brasileiro, com o enfraquecimento da direita liberal tradicional frente à extrema direita. Citou o PSDB como exemplo desse processo, destacando sua perda de protagonismo nacional após dois mandatos presidenciais.
Segundo Veneri, essa transformação é parte de uma crise global que envolve desgaste do neoliberalismo, fortalecimento dos Estados nacionais, elevação das barreiras comerciais e reorganização da ordem econômica mundial.
Prática política e responsabilidade das gerações atuais
Encerrando a entrevista, o deputado citou Antonio Gramsci para contrastar o “pessimismo da razão” com o “otimismo da prática”, defendendo que a militância política exige coerência entre discurso e ação.
Para ele, a resposta ao avanço da extrema direita não está apenas na próxima eleição, mas na reconstrução de uma cultura política que dispute valores, memória histórica e modelos sociais. Ressaltou a responsabilidade das gerações atuais para garantir um futuro melhor para os filhos e netos.
