A Restauração do Patrimônio Cultural
A histórica Igreja Matriz Nossa Senhora do Bom Sucesso, localizada em Guaratuba, no Paraná, está prestes a passar por um projeto de restauração que promete revitalizar um dos principais marcos da cidade. Esta edificação, erguida no século XVIII e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), é uma verdadeira testemunha das histórias de fé e da colonização do litoral paranaense.
Com um orçamento estimado em R$ 6 milhões, o início dos trabalhos enfrenta atrasos devido à necessidade de estudos adicionais sobre ossadas encontradas no interior e nas proximidades da igreja. A Secretaria de Cultura e Turismo de Guaratuba destacou que é fundamental realizar uma coleta cuidadosa antes que as obras se iniciem.
A historiadora Rocio Bevervanso enfatizou a importância do restauro, afirmando que “o restauro da igrejinha de Nossa Senhora do Bom Sucesso é essencial para preservar a memória coletiva e a identidade cultural da comunidade, servindo como uma ponte entre o passado e o presente”.
Desafios e Mobilização para Recursos
O projeto de restauração, desenvolvido pela empresa ArquiBrasil, foi contratado pelo Iphan, utilizando recursos oriundos de emendas parlamentares. O objetivo das intervenções é garantir a integridade dessa rica edificação histórica. O restauro é fruto de um diálogo contínuo entre o Iphan, a paróquia, a sociedade civil e o poder público. O grupo definiu a recuperação da cobertura como prioridade, com a paróquia considerando utilizar uma emenda da Câmara Municipal para essa fase, mas sem confirmação de prazo para o início.
A equipe técnica do Iphan recomendou que a comunidade busque ampliar suas fontes de financiamento, possibilitando a inscrição do projeto no Programa Nacional de Apoio à Cultura e no Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura do Paraná. Esses programas podem proporcionar apoio financeiro por meio de empresas e entidades culturais.
Um Patrimônio de Valor Inestimável
Localizada na Praça Alexandre Mafra, a Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso teve sua construção iniciada em 1768, com a bênção do padre Bento Gonçalves Cordeiro em 28 de abril de 1771. No dia seguinte, ocorreu a primeira missa, corroborando a importância da edificação para a comunidade local, conforme registros da Coordenação de Patrimônio Cultural do Paraná.
O projeto arquitetônico é atribuído ao coronel Afonso Botelho, um dos pioneiros da cidade. Caracterizada como uma igreja de estilo colonial, a construção é feita de alvenaria simples, seguindo o padrão das igrejas litorâneas da época. A estrutura foi erguida com materiais como pedras, conchas, areia e óleo de baleia, muitos dos quais foram obtidos da Ilha do Mel durante a construção da Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres. No interior do templo, destaca-se a imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso, padroeira da cidade, esculpida em madeira policromada.
O tombamento da igreja foi oficializado pelo Iphan em 1938 e reconhecido pelo estado do Paraná em 1972. Atualmente, a paróquia local administra o espaço, que é utilizado em conjunto com a igreja construída posteriormente, especialmente em eventos religiosos.
Intervenções e Descobertas Arqueológicas
Conforme informações de Rocio Bevervanso, a igreja já passou por dez processos de restauração ao longo dos anos, com intervenções registradas em 1931, 1934, 1940, 1982, 1987, 1993, 1997, 2004, 2014 e 2017. “O restauro do patrimônio é um resgate identitário, com a igrejinha servindo como marco histórico na cidade. Manter sua história viva é valorizar a cultura e a arquitetura locais”, explicou.
Durante a restauração de 2014, trabalhadores descobriram ossadas sob o assoalho, apontando para a possibilidade de que os restos mortais pertençam a um dos casais fundadores de Guaratuba, os Mirando Coutinho. Os ossos foram posteriormente realocados em uma nova urna, respeitando o local original.
Valorização Arqueológica da Igreja
Segundo a Secretaria de Cultura e Turismo de Guaratuba, entre a fundação da cidade, em 1771, até cerca de 1850, não havia cemitério em Guaratuba. Por isso, os moradores eram enterrados na própria igreja. Marcos Fedato, diretor de Cultura e Turismo, explica que os mais pobres, negros e indígenas eram sepultados no entorno externo, enquanto aqueles com melhores condições financeiras pagavam por sepultamentos internos na nave ou sob o altar, considerado um espaço nobre.
O atual projeto de restauração identificou vários pontos de sepultamento através de estudos de solo. Técnicos removeram partes do piso de madeira na nave, revelando esqueletos. “Esse trabalho reforça a importância da igreja, não apenas como patrimônio histórico, mas também como um sítio arqueológico, o que amplia seu valor para a memória da cidade”, conclui Fedato.
