A Dependência do Brasil em Fertilizantes
No dia 7 de abril, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu o mundo ao anunciar um cessar-fogo de duas semanas com o Irã, após ter declarado guerra ao país em fevereiro. O anúncio foi feito em meio a tensões crescentes no estreito de Ormuz, uma das rotas comerciais mais importantes do planeta. Apesar do recuo momentâneo, a incerteza na região continua a pairar sobre a economia global, especialmente em relação ao agronegócio brasileiro, que depende fortemente de importações de fertilizantes, especialmente a ureia, essencial para a agricultura em larga escala.
Como observa Bernardo Silva, diretor-executivo do Sinprifert (Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-primas para Fertilizantes), “o Brasil, que possui 30% de seu PIB sustentado pela agricultura, depende de mais de 90% de fertilizantes importados”. Isso significa que qualquer instabilidade nas relações comerciais internacionais pode ter efeitos devastadores sobre a produção agrícola nacional.
Protestos e Reações do Setor Agrícola
Na mesma data do anúncio do cessar-fogo, movimentos de produtores rurais se intensificaram em Pernambuco. A Associação dos Fornecedores de Cana-de-Açúcar de Pernambuco (AFCP) e o Sindicato dos Cultivadores de Cana do Estado de Pernambuco (Sindicape) protestaram em Recife, clamando por apoio governamental para garantir o fornecimento de fertilizantes. Isso evidencia um problema que transcende as fazendas: como milho e soja são fundamentais na ração animal, a alta dos fertilizantes pode desencadear uma onda de aumento de preços para produtos como frango, ovos e carne bovina nos supermercados brasileiros no segundo semestre.
Perspectivas Econômicas e Inflação
As expectativas econômicas não são animadoras. O boletim Focus do Banco Central, que compila previsões sobre indicadores macroeconômicos, aponta um aumento pessimista nas expectativas de inflação, especialmente no setor alimentício. Conforme o Rabobank, a expectativa de alta é de 4,6% até o final do ano, um aumento significativo em relação aos 1,4% de 2025.
O Brasil, que é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, também ocupa a posição de maior importador de fertilizantes. Além disso, cerca de 75% dos defensivos agrícolas utilizados no país também vêm do exterior. Historicamente, a Rússia foi a principal fornecedora do trio NPK (nitrogênio, fósforo e potássio), fundamentais para a fertilização do solo. Apesar das complicações geopolíticas, a Rússia continua representando cerca de 25% das importações brasileiras de fertilizantes, redirecionando suas exportações para países em desenvolvimento como os integrantes do Brics.
O Papel do Irã no Fornecimento de Ureia
Quando se fala especificamente sobre ureia, o Irã é um parceiro estratégico. Em 2025, o Brasil importou US$ 72 milhões em fertilizantes iranianos, correspondendo a aproximadamente 80% das importações desse tipo do país persa. O Catar também desempenha um papel importante no fornecimento de ureia, utilizando o estreito de Ormuz para o transporte. A relação comercial entre Brasil e Irã cresceu nos últimos anos, com o Brasil exportando quase US$ 3 bilhões para o país persa, principalmente em cereais como milho e soja. O sistema de barter, que permite que os produtores paguem materiais com colheitas futuras, propiciou um fluxo logístico eficaz entre os dois países, mas a instabilidade na região coloca esse modelo em risco.
Ameaças à Produção Agrícola
Com os últimos ataques na indústria petroquímica do Irã, a situação se torna ainda mais crítica. O ataque de Israel no dia 4 de abril, que resultou em mortes e feridos, exacerba a preocupação com o fornecimento de ureia. “Nós não temos alternativas em relação à ureia”, alerta Silveira, um produtor local. Ele menciona que, apesar de não haver problemas imediatos para a próxima safra, a situação pode se tornar catastrófica em 2027 devido ao cenário de guerra.
Projeções Futuras e Medidas de Contenção
Se a oferta de ureia for interrompida, os impactos serão severos. “Os produtores já enfrentam dificuldades de crédito há anos devido à alta alavancagem”, comenta Bruno Fonseca, analista do Rabobank. A alta nos custos de produção, agravada pela guerra na Ucrânia, eleva as tensões financeiras no setor, especialmente considerando que a ureia, que era negociada a US$ 350, disparou para US$ 550. O cenário se complica ainda mais com as recentes modificações tributárias que impactaram diretamente os custos de insumos agrícolas.
Para mitigar esses efeitos, o Ministério da Agricultura firmou uma aliança com a Turquia para facilitar o trânsito de cargas brasileiras. A Petrobras também reativou unidades para produção de fertilizantes, com a expectativa de que essas iniciativas atendam até 35% da demanda interna nos próximos anos. Além disso, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) busca reduzir a dependência externa até 2050, mas para isso, é fundamental que haja ação política e comprometimento efetivo com a implementação das propostas.
